Capítulo 67 - O despertar da Luna

1526 Words
Mia abriu os olhos devagar, como quem desperta de um sonho que não pediu para ter. O gosto do beijo de Bryan ainda ardia em sua boca, uma mistura de sândalo, chuva e lembranças que ela gostaria de enterrar. O passado pulsava nela como uma ferida m*l cicatrizada. E o homem à sua frente com o peito arfando, o olhar desesperado, as mãos tremendo de necessidade era o mesmo que já a fez queimar por dentro. Ela engoliu seco. Ali, entre o corpo dele e a própria respiração acelerada, Mia sentia dois mundos colidirem dentro dela: o mundo que queria abraçá-lo… e o mundo que queria destruí-lo. Mika, sua loba, rosnava em satisfação. Companheiro. Cheiro. Toque. Tomar. Mas Mia humana… não. A Mia humana estava farta de sangrar. Ela apertou os ombros dele e empurrou, mesmo que seu corpo clamasse para puxá-lo de volta, mesmo que doesse afastá-lo. — Bryan… — Sua voz saiu trêmula, quase um pedido que não queria existir. — Não… eu… Ele a encarou como um animal ferido. E isso era o pior: ele parecia quebrado. Vulnerável. Humano demais. — Mia — ele murmurou, aproximando o rosto do dela como se a respiração dela fosse oxigênio. — Eu… eu preciso de você. Ela desviou, tremendo. O cheiro dele — sândalo molhado de chuva — era veneno líquido para ela. Ele desceu beijos pela clavícula dela, um rastro quente e úmido que fez seu estômago se contrair. As mãos deslizaram até a alça do vestido, puxando devagar, provocando. A boca dele encontrou o início de seu seio, quente demais, íntimo demais e já rígido, seu corpo correspondia a cada toque dele. Mia apertou os olhos, lutando contra o próprio corpo. — Para… — ela sussurrou, mas não soou firme. Era quase um gemido. Bryan não avançou mas também não se afastou. Ficou ali, a boca pousada na pele dela, respirando como se tentasse memorizar aquele momento. — Eu não vou conseguir ficar longe — ele confessou, a voz rouca. — Não depois de tudo. Não depois de quase te perder. Eu… eu estou tentando, Mia. Um toque dele e ela tombaria. Ela sabia. Ele sabia. Mia segurou o rosto dele com força e o afastou alguns centímetros. — Eu não vim aqui pra isso — disse, firme, mesmo com o coração colapsando no peito. — Eu quero respostas, Bryan. Quero a verdade. E quero agora. Ele piscou, confuso, desarmado. Ela se afastou dois passos como quem foge da própria perdição. — Você fez aquilo por vingança? — sua voz saiu cortante. — E por que agora está tão… obcecado? Por que parece tão desesperado? O olhar de Bryan se endureceu, a dor se transformando em algo perigoso. Ela cruzou os braços, controlada, mesmo com o corpo vibrando. Ela recuou mais um passo. O escritório, testemunha mudo da traição, parecia menor; as paredes absorviam a tensão como um copo que não transborda. Mia pousou-se no sofá com cuidado, cruzou pernas e braços, uma muralha feita de silêncio. — Eu quero saber se valeu a pena a sua vingança. — Cada palavra punha peso sobre ele. — Eu não sou a Júpiter que você queria moldar. Eu sou a Luna desta alcateia, mãe dos nossos filhos. Não sou brinquedo. Não vou me diminuir para te agradar. Já sentada no sofá, pernas cruzadas, queixo erguido. Uma Luna. E ela estava fechada para ele. Não uma menina apaixonada. Bryan a observou como se nunca a tivesse visto antes. Porque talvez nunca tivesse mesmo. Não daquele jeito. — Eu quero saber se valeu a pena? — ela provocou, inclinando o corpo para frente. — A sua pequena vingança? Me esconder coisas? Me trair daquela forma? Dizer que não ligava pra mim e depois agir como se eu fosse… sua propriedade? Ele respirou fundo, o maxilar travando. Ela ergueu o tablet na frente do peito, tal qual um estandarte. — E a partir de agora, estarei em todas as reuniões, em cada negociação. Ponto final. Quer você goste ou não. Os olhos de Bryan se fixaram nela, surpresa, admiração e um medo novo dançando em seu olhar. Aquela Mia era diferente: forjada na dor, ascendente, uma autoridade que não pedia licença. Ele olhou para a lista de compromissos no tablet, mordendo o lábio. O que era para protegê-la, transformara-se em armadilha. — Eu… — ele começou, mas Mia ergueu a mão. — Não seja evasivo, quero que seja sincero ou eu vou embora. Bryan se aproximou devagar. Não como Alfa. Mas como homem que teme perder a pessoa que ele amava mais do a si mesmo. Ele ajoelhou diante dela. A cabeça baixa o Olhar culpado. Bryan tinha a boca ainda marcada daquele beijo; a pele inchada do lábio lembrava que havia cedido antes, mesmo sem querer. Uma mistura de desespero e orgulho apertou seu peito. Ele suspirou, um som pesado que desmanchou um pouco da rigidez. — Está bem, Mia. — A voz veio grave, sem a máscara de comando. — Você tem razão. Eu guardei mágoa por muito tempo. Sim, mantive Lívia por perto — uma fraqueza minha — mas não foi vingança como você pensa. Ela se aproveitou de um momento de fraqueza. Perdemos nosso filhote… e eu me senti um lixo. Eu tenho medo de te perder. Eu fui um merda. Por um segundo, houve um silêncio cortado apenas pelos relógios invisíveis do mundo. Bryan aproximou-se e sentou à frente dela, puxando-a para o colo. O gesto, naquela hora, foi mais confissão que posse. — Eu sei que não mereço perdão — murmurou, com a voz quebrada. — Passei por tanta dor… e acreditei que me protegeria se me fechasse. Mas eu quero aproveitar o tempo que tenho com você. Quero te ver, te tocar, te ouvir. Não quero te afastar mais. Mia piscou, o peito ardendo. — Protegia de mim… por quê? Bryan levantou o olhar, olhos azuis escuros de dor. — Porque amar você me destrói — ele confessou, a voz quebrando. — E perder nosso filhote me destruiu mais ainda. Eu estava… despedaçado. E tive medo. Medo real. E quando vi você se afastando, eu… eu me sabotei. Sabotei nós dois. Ele tocou o joelho dela com cuidado. — Mas agora… agora eu não quero mais me esconder. Quero lutar com você. Por você. Por nós. Mia hesitou. O cheiro dele subiu — sândalo molhado, eletricidade, tempestade. A loba dentro dela uivou, sedenta. Mas… a dor era maior. Ela afastou a mão dele. — Você ainda não entendeu — Mia disse, firme. — Você sempre tenta me tomar antes de me ouvir. Me tocar antes de me respeitar. Me possuir antes de me compreender. Eu não vou ser isso pra você, Bryan. Nunca mais. Ele respirou fundo, encarando-a com uma mistura de desejo e sofrimento. — Então fala — ele pediu. — Me diz o que você quer. Ela aproximou o rosto do dele, mas não tocou. — Primeiro, eu vou treinar e ficar mais forte — disse ela, voz firme, firme como aço por baixo da seda. — Quero saber quem nos atacou, entender os motivos, e depois — quando tivermos as respostas — eles vão pagar. Por cada gota de medo que causaram aos nossos filhos, vamos cobrar um preço. Bryan sentiu o lobo dentro dele reagir, reconhecendo a promessa de sangue. — E quero — ela finalizou — entrar em cada reunião, cada decisão, cada guerra. Não vou mais ser a mulher deixada do lado de fora enquanto você decide tudo sozinho, você irá me apresentar ao mundo, todos saberão quem eu sou … chegou a hora. Bryan assentiu. Lento. Profundo. Aceitando. — Está bem. — Ele tocou a mão dela, dessa vez com respeito. — Você é minha parceira agora. Minha Luna. Minha igual. Mia engoliu o nó na garganta. A tensão entre eles se intensificou — elétrica, perigosa, s****l. Bryan aproximou-se do rosto dela até as respirações se encontrarem. — Mas não pense que eu não te quero — ele murmurou, voz grave, quase um rosnado. — Eu te desejo tanto que chega a doer, Mia. Eu acordo pensando no seu cheiro… e durmo sentindo falta do seu corpo no meu. Isso não vai mudar. Ela estremeceu, mas manteve o queixo erguido. — Desejo nunca foi o problema — Mia respondeu. — O problema sempre foi o seu medo. Ele sorriu de lado. Um sorriso lento, perigoso. — Então deixa eu te provar o resto — ele sussurrou, tocando o queixo dela com o polegar. Ela empurrou a mão dele. — Um passo de cada vez. Bryan fechou os olhos, como se aquela rejeição fosse um golpe. Mas quando abriu, havia algo novo neles: não arrogância, não raiva… determinação. A porta se abriu, Diana entrou tremendo, e Bryan sequer olhou para ela. — Cancele tudo — ele ordenou. — Hoje eu não atendo ninguém e não quero mais ser interrompido. Ele olhou para Mia. — Hoje… eu só atendo a minha Luna. Mia segurou o ar. Essa batalha estava longe do fim. Mas pela primeira vez… Bryan estava lutando do lado certo. E isso, por mais perigoso que fosse, acendeu uma pequena faísca de esperança dentro dela.
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