Capítulo 55 - Decisão Mortal

1530 Words
— Vai deixá-la morrer, então?! — gritou Axel, rompendo o silêncio com sua própria dor. O eco da voz dele reverberou nas paredes de pedra, partindo o ar em mil estilhaços de desespero. O jovem guerreiro deu um passo à frente, os olhos marejados, a garganta tremendo de emoção. — É igual a Daemon! — cuspiu, e ali havia não só revolta, mas medo. Medo cru, pulsante, de perder Mia. O ambiente inteiro pareceu se curvar sob o peso daquelas palavras. O ar ficou denso, quase palpável. O som das chamas nas tochas tornou-se um sussurro distante. O chão sob os pés dos guerreiros vibrava entre a realidade e a emoção — o medo de um lobo diante da perda inevitável de sua fêmea Alfa. Mia estava ali, pálida, quase translúcida, deitada sobre um colchão grosso, envolta em peles e cobertas. Sua respiração era fraca, irregular, um fio de vida prestes a se romper. Cada expiração soava como um adeus engasgado. A luz bruxuleante das tochas acariciava sua pele e fazia o brilho prateado de suas veias cintilar como relâmpagos sob a pele. Bryan observava tudo em silêncio. Seus punhos cerrados tremiam, os nós dos dedos brancos, e o peito arfava com o peso de uma decisão que o rasgava por dentro. O Alfa Supremo — o lobo que todos seguiam — parecia prestes a ruir. Nos olhos dele, o carmesim queimava como uma tempestade de fogo e dor. — Todos pra fora. Agora. — Sua voz reverberou pelo quarto como uma ordem divina, carregada com o poder absoluto de Rei e Alfa. Ninguém ousou mover-se por um segundo, até que ele repetiu, mais alto, mais feroz: — Eu disse fora , se não eu mato um por um! O dom do comando ativou-se, vibrando no ar como um trovão. A força ancestral daquele som fez o coração de todos tremer. Guerreiros experientes se entreolharam, sem coragem de desobedecer. Até Malik, o estrategista, hesitou antes de abaixar a cabeça em respeito e sair. Um a um, os membros da alcateia se retiraram, arrastando os passos pesados, o olhar baixo. O silêncio que ficou após o último ranger da porta foi absoluto — um silêncio de cemitério, denso, sufocante. Bryan se aproximou. O som do próprio coração ecoava em seus ouvidos, forte, irregular, como se cada batida fosse uma contagem regressiva. Ele se ajoelhou ao lado da cama, os olhos fixos na mulher que era sua alma. Mia continuava imóvel, a respiração tão leve que parecia ilusória. O brilho prateado sob a pele dela começava a se intensificar, mas não era um bom sinal. Era o veneno se espalhando. O tempo corria, e cada minuto que passava a levava para mais longe. Bryan inspirou profundamente, os músculos tensos. Foi então que uma ideia, selvagem e perigosa, começou a tomar forma. Um risco. Um ritual que não existia nos livros, nem nos pergaminhos antigos, mas que o instinto — e talvez a própria Deusa — sussurrava dentro dele. — Mia… amor… — murmurou, passando a mão pela bochecha fria dela. A pele parecia vidro sob a ponta dos dedos. — Você não me foi dada pela Deusa à toa, eu sei que posso te salvar essa é a minha sina. Os olhos dele endureceram. O vermelho carmesim pareceu incendiar-se. — Eu vou salvar você. Nem que eu morra tentando. Com cuidado, ele a ergueu nos braços. O corpo dela estava leve demais — como se a alma já se desprendesse. Cada passo que ele dava parecia um golpe no próprio coração. O ar dentro do quarto se movia com a respiração dele, pesada e desesperada. Ao entrar no banheiro da suíte, o contraste era brutal. Luxo e desespero se encontravam naquele espaço digno de um rei nórdico moderno. As paredes de mármore n***o com veios dourados refletiam a luz âmbar do teto abobadado. Espelhos sem moldura multiplicavam o reflexo da cena — um Alfa carregando sua companheira moribunda, como um guerreiro antigo levando seu amor ao altar dos deuses. No centro, sobre o piso aquecido de pedra polida, a banheira de pedra vulcânica n***a o esperava. As bordas esculpidas com runas lunares brilhavam em resposta à energia que Bryan emanava. Acima dela, uma a******a no teto deixava passar a luz prateada da lua, que caía em feixes suaves sobre o casal — uma bênção silenciosa da própria Deusa. Da cascata artificial no teto, a água descia constante, criando um som hipnótico, ancestral. Um sussurro de florestas antigas, de rituais esquecidos. O cheiro de lavanda selvagem e sândalo envolvia o ar, tentando mascarar o cheiro metálico da morte que pairava no corpo de Mia. Bryan a deitou com o máximo de cuidado sobre a borda acolchoada de cetim. Seus dedos tremiam ao tocar o tecido e a pele fria dela. — Vai dar certo… vai dar certo, amor… — sussurrava, como um mantra. Despiu-a com reverência, cada movimento medido entre o medo e a esperança. As roupas encharcadas foram deixadas de lado, e a pele de Mia, translúcida sob o brilho lunar, parecia feita de luz e dor. O corpo dela reagia apenas com pequenos espasmos involuntários, a última fagulha de resistência tentando se manter acesa. — A água vai te aquecer… eu só preciso de tempo… — murmurou. Ligou a água quente. O som foi quase ensurdecedor, uma torrente que encheu o espaço de vapor. Em segundos, o banheiro se transformou num casulo de névoa. O calor subiu, colando ao corpo dele, aos músculos tensos. As runas ao redor da banheira começaram a brilhar com intensidade. Bryan colocou Mia dentro da água, sustentando sua cabeça em seu braço, posicionando o corpo dela de modo que ficasse completamente submerso. A água borbulhava ao redor, quente, viva, como se reagisse à energia dele. Por um instante, ele ficou imóvel, observando-a. E então, sem hesitar, começou a se despir. Cada peça de roupa caiu ao chão com o som pesado de tecido molhado, ecoando como sinos distantes. O suor escorria de sua testa — não pelo calor, mas pela adrenalina, pelo medo. Cada segundo era uma batalha entre a vida e a morte. Quando entrou na água, sua pele sentiu o choque. O calor parecia queimá-lo, mas o Alfa não recuou. O vapor o envolveu completamente, borrando os contornos do mundo até restar apenas ela, Mia, sua razão, sua ruína, seu destino. Ele se aproximou, o coração dela batendo fraco sob seus dedos. — Bones… Bones, vamos lá. Vamos salvar nossa companheira. —. Bones urrava em resposta dentro de Bryan. Sua voz era um rugido e uma súplica ao mesmo tempo. O som reverberou nas paredes, profundo, animal. Dentro dele, o lobo ancestral despertava. O poder Alfa emergia, rasgando a carne, exigindo espaço. Os olhos de Bryan brilharam em carmesim puro, como duas brasas acesas em noite sem lua. As presas se alongaram, afiadas, prontas. O peito dele expandiu com a força de toda uma linhagem. O ar pareceu vibrar, e por um segundo, o banheiro foi tomado pela aura rubra do Alfa Supremo. Ele localizou o ponto exato onde o veneno pulsava — uma ferida escura, profunda, marcada pelas presas de Malik. Era ali que a morte se alimentava dela. — Perdoa se isso doer, meu amor… — murmurou, com o coração se partindo na garganta. Bryan inclinou-se, o rosto tenso, e cravou as presas na carne dela. O som foi um estalo abafado, seguido de um rosnado grave que ecoou como trovão. A dor o atravessou como lâmina, mas ele não parou. O gosto do sangue e do veneno explodiu em sua boca — amargo, denso, metálico. Uma mistura que queimava como fogo líquido. Ele sugou com força, sentindo o veneno pulsar sob sua língua, tentando invadir seu corpo. O Alfa resistiu, queimando a toxina com o calor do próprio sangue. Cuspiu na água, o rosto contorcido, os olhos febris. A água espumou e escureceu, tingida pelo veneno, exalando um cheiro acre e podre. Mas Bryan voltou a sugar. De novo. E de novo. Cada vez mais fraco. Cada vez mais desesperado. O corpo dele tremia, os músculos pulsavam em dor, o coração batia em um ritmo selvagem. Ele podia sentir a toxina tentando se espalhar por suas veias, mas sua fera interior queimava tudo em nome dela. — Vai viver… você vai viver! — gritou, a voz partida, rasgada. Lágrimas escorriam pelo rosto, misturando-se à água quente. As runas ao redor começaram a pulsar em sincronia com os batimentos de ambos. O ar cheirava a ferro, a vapor e a amor incondicional. — Oh Deusa por favor não a tire de mim – ele suplicou. A água ao redor, antes turva, começou a mudar. O escuro foi sendo invadido por fios de luz — prata e carmesim entrelaçados, dançando como dois espíritos que se reconheciam. O brilho se intensificou até quase cegar. Bryan a segurava com força, os dedos cravados nos ombros dela, o peito encostado ao dela. O som do coração de Mia, antes tão fraco, oscilou uma vez. Depois, outra. O tempo pareceu parar. Tudo o que restava era o som da água borbulhando, o vapor subindo, e o coração dele chamando pelo dela. E então Mia… se moveu.
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