Lopes Narrando
Vinte e quatro horas.
Parecia uma eternidade. E ao mesmo tempo, parecia que tinha sido ontem que eu tava com ela na viatura, sentindo o cheiro, o calor, o gosto.
Carol.
O nome dela não saía da minha cabeça. Nem a imagem. Nem o jeito que ela me olhou antes de sair do carro, como se dissesse "isso não acabou" sem precisar abrir a boca.
Passei o dia tentando trabalhar, tentando focar nos relatórios, nas ocorrências. Mas toda hora minha mente voltava pra ela. Pra morena de tranças que desmontou minha farda e minha cabeça em uma noite.
Hoje era domingo. Almoço na casa do meu pai. Obrigação mensal que eu não podia evitar, mesmo com o cansaço mental que tava.
Vesti uma camisa social, calça jeans, e encarei o trânsito até a Zona Sul. O contraste do Dendê com o Leblon era sempre um soco no estômago. Lá, a realidade. Aqui, a bolha.
Estacionei na frente do apartamento do meu pai. Prédio chique, portaria 24 horas, elevador privativo. O cheiro de dinheiro no ar.
Subi. Bati na porta. Minha irmã, a Patrícia, abriu. Delegada civil, toda arrumada, um sorriso irônico no rosto.
— Olha quem resolveu aparecer. O praiano da família.
Passei por ela sem responder.
Na sala, a mesa posta. Minha irmã mais velha, a Ana, promotora, já tava sentada com um copo de vinho na mão. Meu irmão, o André, advogado criminalista, me olhou de cima a baixo.
— Rafael. Tava demorando. Achamos que você tinha se perdido no caminho.
— Trânsito — respondi, seco.
Sentei. Ninguém perguntou como eu tava. Ninguém nunca perguntava.
Meu pai apareceu vindo da cozinha, um charuto apagado na mão. Juiz Otávio Mendonça. Setenta anos, postura de general, olhar que julgava antes mesmo de você abrir a boca. Me olhou, e o canto da boca dele se moveu num quase sorriso.
— Rafael. Sentei aqui.
Apontei pra cadeira onde eu já tava.
— Já sentei, pai.
Ele ignorou a ironia. Sentou na cabeceira, bateu na mesa com a faca.
— Servem.
A empregada começou a colocar a comida. Enquanto isso, as perguntas vieram.
Patrícia foi a primeira, como sempre.
— E aí, irmão? Como é que tão as blitz? Já conseguiu pegar algum bandido perigoso ou só multa em playboy?
André riu, jogando o guardanapo no colo.
— Deixa ele, Paty. O Rafael é o herói do asfalto. Toda noite salvando a cidade de motoqueiro sem capacete.
Respirei fundo, mantendo a calma.
— Faço meu trabalho. É o que importa.
Ana ergueu o copo, o olhar afiado.
— Trabalho de verdade é o nosso, Rafael. Lei de verdade. Julgamento. Investigação séria. Não ficar parado no meio da rua tomando sol.
— Cada um escolhe o que quer ser — respondi, controlando a voz. — Eu escolhi a rua.
Meu pai pigarreou.
— A rua é importante. Mas não podemos esquecer que a verdadeira batalha se ganha nos tribunais. E nessa batalha, a gente tá prestes a ter uma vitória.
Todos olharam pra ele.
— Consegui o mandado. Vai sair na próxima semana.
Meu coração deu um salto.
— Mandado pra quê?
Ele me olhou direto.
— Invasão. No Morro do Dendê. Vamos descer o sarrafo naquele filho da putä do Zeus. O alvo principal.
O ar sumiu da sala por um segundo.
Zeus.
O pai da Carol.
Respirei fundo, tentando manter a cara neutra.
— A rota que você faz blitz é perto do Dendê, não é, Rafael? — meu pai perguntou.
— É — a voz saiu controlada. — Passo por lá.
— Então você vai ver o movimento antes da operação. Qualquer coisa estranha, me avisa.
Acenei com a cabeça, mas a mente já tava longe. Carol. Se eles invadissem o Dendê, ela taria no meio. E se ela fosse filha do Zeus, como eu desconfiava… ela podia morrer. Podia ser presa. Podia…
— Rafael? — Patrícia chamou. — Tá voando, irmão.
— Cansado — menti. — Semana pesada.
André riu, venenoso.
— Pesada de tanto segurar arma ou de tanto segurar caneta?
Dessa vez, não respondi.
O almoço seguiu. Conversas sobre política, sobre processos, sobre a vergonha que era o Rio de Janeiro. Eu só ouvia, respondendo monossílabos, enquanto a imagem da Carol não saía da minha cabeça.
Ela no meu colo. Suada. Sorrindo. Os olhos brilhando.
E ela, algemada, numa viatura, sendo levada como bandïda.
No fim da tarde, quando eu já tava de saída, meu pai me chamou no escritório dele.
Entrei. Ele tava sentado atrás da mesa, o charuto aceso agora.
— Rafael. Senta.
Sentei.
— Eu sei que você não gosta do meu jeito. Sei que escolheu outro caminho. Mas você é meu filho. E eu preciso saber: você tá do lado certo?
A pergunta pegou fundo.
— Tô, pai.
Ele me estudou por um longo tempo.
— O mandado saiu. Invasão no Dendê. Vai ser na quinta-feira, de madrugada. Se você souber de alguma coisa, qualquer movimentação estranha, me avisa.
Balancei a cabeça.
— Pode deixar.
Levantei pra sair. Na porta, ele falou de novo.
— Rafael. Cuidado com quem você anda. As ruas são traiçoeiras. E as pessoas também.
Fechei a porta atrás de mim.
No carro, sentei, coloquei as mãos no volante, e fiquei olhando pro nada.
Fudeu.
Carol. Se ela for filha do Zeus… se ela tiver envolvida… se a operação pegar ela no meio…
Passei a mão no rosto, cansado.
Eu m*l conhecia aquela mulher. Tinha passado uma noite com ela. Não devia nada. Não tinha compromisso.
Então por que a ideia de ela se machucar doía tanto?
Balancei a cabeça, liguei o carro.
Precisava pensar. Precisava de respostas.
E precisava, de algum jeito, avisar ela sem entregar quem eu era.
Mas como?
Füdeu.
A palavra ecoou na minha cabeça o caminho inteiro de volta pro meu apartamento. Estacionei, desliguei o carro, mas não saí. Fiquei ali, no escuro da garagem, as mãos ainda no volante, os dedos formigando.
E se ela tiver lá na hora da p***a da invasão?
E se ela for atingida?
E se eu tiver que entrar naquela comunidade e ver ela no meio do fogo cruzado, caída no chão, o sangue misturado com as tranças que eu passei a mão, o corpo que eu senti tremer debaixo de mim?
Fechei os olhos com força, tentando expulsar a imagem. Não adiantou. Ela tava grudada na minha mente igual o cheiro dela tinha grudado no meu uniforme.
Balancei a cabeça, sozinho no carro.
— Você nem conhece a mina, Lopes — sussurrei pra mim mesmo, a voz ecoando no silêncio. — Uma noite. Foi uma noite. Esquece.
Mas não dava.
Não dava porque não era só o sexø. Era o jeito dela. O desafio no olhar. A forma como ela me encarou sem medo, como se dissesse "pode vir, que eu tô pronta pra tudo". Como se ela fosse o espelho de tudo que eu sempre admirei e nunca tive coragem de ser.
Passei a mão no rosto, cansado.
— Ela pode ser a filha do inimigo do meu pai, caralhø. Ela pode ser TUDO que eu jurei combater. E eu tô aqui, preocupado, igual um idiøta.
Respirei fundo, abri a porta do carro.
O ar da noite bateu no meu rosto, mas não levou nenhuma resposta.
Só deixou mais claro: tava fodido. E não tinha volta.
Continua...