Um dura batalha pela frente

2022 Words
Seguro o riso, ainda não me acostumei com essa exposição toda, mas não é como se eu não soubesse onde estava me metendo. A Poly por outro lado, parece empolgadíssima. — Sabe que eu ainda não consigo acreditar, Você ta pegando o Nero! Isso é surreal. — Ele está louco para te conhecer, mas não é como se pudesse vir ao hospital sem causar um tulmuto — Louco para me conhecer? Vocês não têm nada melhor para fazer do que falar de mim não? Ela comenta rindo, sei muito bem a que está se referindo e me seguro para não abaixar a cabeça. Não Poly, a gente não tem nada melhor para fazer. Mas claro que eu não vou dizer isso a ela. — Ele é metido? Sempre achei que ele é bem egocêntrico. Mas também com um corpo daquele, uma voz daquela e uma conta bancaria exorbitante eu não o culparia. Se eu tivesse esse borogodó todo, ninguém ia me suportar. E dessa vez, eu não precisei fingir o sorriso bobo no meu rosto. — Não, ele não é nenhuma das duas coisas. Ele é o tipo de cara que te ouve sem precisar ficar te interrompendo o tempo inteiro para exemplificar sobre si. Ele te escuta como se o que você estivesse falando, fosse a coisa mais importante do mundo. Ele sabe te divertir quando você não quer se divertir sem precisar forçar a barra. E quando ele ri... É diferente, é com vontade, é sem vergonha alguma. Ele é tudo que eu achei que não era antes de conhecê-lo. Ela olhava para mim com os olhos brilhando. — Ai amiga, eu nem consigo acreditar, você está apaixonada! Ai que ódio de estar nessa cama, queria poder interrogar o sujeito para saber se te merece. Ela fica emburrada e eu tenho vontade de rir, se ela soubesse que se não fosse ela, eu jamais teria conhecido o Rafael... O Dr. Carter entra na sala, fazendo-nos interromper o nosso papo de meninas. — Estou interrompendo alguma coisa? — Ele pergunta, com aquele sorriso largo de sempre. — Só as histórias amorosas da minha amiga, nada de mais. Prefiro conversar com o doutor sobre futuras aventuras... Essa minha amiga... Não consigo evitar rir. Ele olha para mim de canto de olho e volta sua atenção para ela. — Para viver essas aventuras a senhorita terá que sair dessa cama. — Bobagem, as aventuras que estão na minha cabeça envolvem piamente uma cama. Eu gargalhei alto, diante dessa. Polyana não tem o menor escrúpulo nas suas brincadeiras. O doutor só fez rir. — Não sei se essa cama aguenta nós dois, e mesmo se aguentar, tenho medo do que essas "aventuras" provariam no seu coração. Acho que não iria suportar... — Morreria feliz e satisfeita. — Linguinha afiada. — Tá legal chega de cantar o seu médico, daqui a pouco ele pede transferência para outro hospital ou te processa por assédio. Ela olha para mim com uma cara de pirraça. — Tá com ciúme, Lara? Já tem o Gostoso Nero para você, me deixa com o meu Dr. Delícia. Ele injeta uma seringa no soro dela – o que para mim era um serviço de enfermeiro ou técnico de enfermagem, não sei – e se vira para mim. — Então esse lance com o Nero é verdade, hein. — É sim. Quase falei: Não é um lance é um namoro. Mas além de ser uma atitude imatura da minha parte o Dr. Carter não merece. Parece que ele apenas está preocupado comigo, e além do mais, sempre foi bom pra mim, não sou do tipo m*l agradecida. — Gostaria de falar com você em minha sala, pode ser? Olhei no relógio, faltavam cinco minutos para acabar o horário de visitas. — Daqui a pouco, o horário de visitas já está acabando, queria aproveitar mais um pouquinho com ela. — Bem é que meu Platão acabou há meia hora, se puder ir agora eu peço para prolongarem seu horário. — Tudo bem. — Dou um beijo na testa da Poly. — Volto já. — Vê se não vai abusar do meu médico, ele é meu, não esquece sua talarica! Ri mais um pouco e acompanhei o Doutor a sua sala. Espero sinceramente que o assunto não seja pessoal, não gostei nenhum pouco da ultima conversa que tive com ele. Sento-me a sua frente e espero que ele explique o motivo de virmos até aqui. O que ele o faz. — Não se preocupe, pela sua cara deve estar com medo de eu volte ao nosso último assunto. Maneio a cabeça, confirmando sua hipótese. — Não é isso. Quero falar da Poly. Já fizemos todos os exames e vamos começar o tratamento, imaginei que gostaria de saber como vai funcionar. — Imaginou certo. Obrigada por se oferecer para me explicar. — Disponha sempre. Bom, já é de seu conhecimento que o estado de sua amiga não é dos melhores, e que ela deveria ter ido a um hospital quando os primeiros sintomas apareceram, mas agora é tarde para se lamentar, o câncer já se encontra em estado avançado. Ele tinha que me pôr tanto medo? Meu coração começa a acelerar e por um momento acho que ele vai me dizer que não há mais salvação para minha amiga e quando minha voz começou a soar, estava entrecortada, pelo medo que já havia se alojado em minha garganta. — O Doutor também disse que ela tinha grandes chances. — E ela tem, fica calma, Lara. O grande problema é que eu preciso que você entenda que não vai ser fácil. O linfoma da sua amiga está em estado avançado e as chances dela são grandes se compararmos a outros tipos de câncer, mas não quer dizer que não tenhamos uma dura batalha pela frente. Vamos começar com a quimioterapia e seguida da radioterapia. Tentaremos a todo custo conseguir curá-la dessa forma, mas você precisa estar ciente de que há grandes chances de que seja necessário um transplante de medula. Ai meu Deus, era tudo que eu temia. E se não achar um doador compatível? E se minha amiga se for, como eu vou sobreviver sem ela? Começo a ficar tonta, as lágrimas nublando minha visão. Mauricio sai de sua mesa e vem até mim, com semblantes assustado, pelo menos eu acho que é isso, não consigo enxergar direito, não consigo raciocinar direito. Meu corpo inteiro começa a aquecer e formigar, o ar desaparece dos meus pulmões e a única coisa que consegue me tirar desse torpor de medo é a voz do Doutor Maurício que, antes que eu percebesse estava ajoelhado ao lado da minha cadeira. — Lara olha para mim. Respira, um... Dois... Três... Isso. Fica calma e olha para mim Fiz tudo que ele pedia, mas meu peito ardia, e doía tanto... Não conseguia me acalmar, simplesmente não conseguia... Eu tinha que respirar, sabia disso, mas tinha se tornado tão difícil, é como se toda a tristeza que eu estava sentindo tivesse entupido minhas vias respiratórias impedindo a passagem de ar. — Eu não consigo, não consigo aceitar perdê-la. Eu só... Não consigo. Ele segura meu rosto de maneira brusca, fazendo com que eu olhe fixamente para ele, seu olhar é duro, como se estivesse me dando uma ordem, e realmente estava. Me acalmei um pouco, e aos poucos minha respiração foi voltando ainda que de forma inconstante. — Você não vai perdê-la, eu estou te prometendo isso. Ela viver e voltar a ser a saudável Poly que sempre foi. Mas o tratamento dela não será fácil e você mais do que ninguém terá que ser forte, por que muitas vezes a Poly não vai ser. — Continuo olhando para ele sem desviar o olhar, a respiração voltando de forma gradativa. — Você vai ter que ser forte por vocês duas, Lara. Consegue fazer isso? Eu conseguia? Será que eu iria conseguir ser forte mesmo vendo minha amiga sofrer e beirar a morte? Conseguir manter a força mesmo quando vê-la desistir? Não sei se serei tão forte. Mas é o único jeito. Ela precisa de mim, e vai precisar muito mais, e se para que ela sofra menos, eu tenha que ser forte, a única coisa que farei é ser. — Consigo. — Digo meio sem convicção. — Tenho que conseguir! Ele sorri. — Você vai conseguir. Foi forte até aqui e vai continuar sendo. Não me achei forte. Pelo contrário me achei muito fraca nesse momento, e justamente quando estava na presença de outra pessoa. Mas achei melhor assentir. Ele me deu um copo de água, que eu aceitei de boa vontade. — Deixa eu mudar de assunto, pra ver se você esquece um pouco isso antes de ir ver a Poly, afinal tem que se despedir por hoje. — Duvido que consigo esquecer, mas não custa tentar. — Como você está lidando com a fama? Afinal agora você é uma subcelebridade! Eu tive que rir. Não fiz nada para ser famosa. — Tudo isso é estranho demais. A única coisa que faço é namorar o Rafael, o famoso é ele, quem trabalha duro para ter sucesso é ele, eu não faço nada. — Mas querendo ou não você ficou. E ai como é que é? — Assustador. As fãs do Rafael são assustadoras. — Nós rimos — Mas conhecendo ele agora, eu entendo porque elas o amam tanto. — Ele é bom para você? — Muito bom. Ele é uma pessoa maravilhosa, Mauricio. — Tem que ser, você merece alguém especial. Espero que mesmo com tudo que está acontecendo ele consiga te fazer feliz. Sorri. Ele era um cara legal, no fim das contas. Então lembrei sobre ele ter falado que seu plantão acabou, e me levantei, já havia tomado seu tempo demais. No final ele conseguiu me fazer sorrir, mesmo depois do drama de minutos atrás. — Agora eu acho que eu tenho que ir. Afinal seu plantão já acabou há muito tempo e eu estou tomando seu tempo demais. Nem imagino o quanto você está cansado. — Você me fez até esquecer do cansaço, sabia? Essa sua vida interessante de recém famosa me distraiu. — Ele se levantou também e veio até mim. — Promete que vai ficar bem? Eu provavelmente serei uma vaca agora, mas a curiosidade simplesmente é mais forte do que eu. — Por que se importa tanto? Ele pareceu desconfortável e imediatamente eu me arrependi da pergunta, afinal ele apenas me ajudou o tempo inteiro e eu aqui agindo como uma ingrata. — Eu só... Te admiro. Sei por experiência própria que existem muito poucas pessoas que são como você. Vejo isso aqui no hospital todos os dias. Pais, irmãos, filhos, que tem muito mais laço de sangue e motivos para se preocupar mais com seus entes queridos doentes e você que é apenas uma amiga e está disposta a tudo por ela. Apenas me preocupo com o quanto isso pode te afetar, sei como pode ser difícil essa jornada. Ele é realmente uma pessoa muito boa. Por isso nem pensei no quão pessoal isso poderia ser e lhe abracei. No começo ele pareceu surpreso, mas logo retribuiu. — Eu te admiro ainda mais. Além de ser um ótimo medico, é um ser humano muito bom. Obrigada pela força que você está me dando, não sei se conseguiria se o médico da Poly fosse outro. — Sua força está em você, Lara. Eu só fiz te lembrar isso. Saí de sua sala melhor do que tinha entrado. Parece ser o efeito Carter. Caminhei até a sala da Poly e ela nem me viu quando entrei olhava para a televisão com raiva, curiosa eu fiz o mesmo. Era outro programa, mas minha foto continuava na tela. Dessa fez com uma legenda bem mais ofensiva. "De empregada a primeira dama da musica pop brasileira. O que será que ela fez para conseguir uma mudança tão drástica?" ________________________________ Tá difícil é? Calma que vai melhorar Olha para o céu e ver que quem ta lá Tá doido para te ajudar, E vai... – Por trás do céu (Rafael Nero)
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