Assunto do momento

1402 Words
Depois de assistir meu namorado postiço falando da gente na TV, precisei fazer uma yoga para acalmar a mente e relaxar o corpo. A ansiedade de alguém que não está acostumada a descansar costuma atacar quando não há trabalho a ser feito. Nunca tive meus trabalhos da faculdade tão em dia quanto agora e simplesmente não há mais nada para fazer. Saio da varanda logo após o sol se pôr e ouço o telefone da sala tocar, o número no identificador de chamadas já está gravado na memória. — Oi namorado — Atendo. — Você viu a entrevista? ­— Ele pergunta com a voz um pouco hesitante. — Vi sim. — Olha desculpa não ter te dito ontem, mas eu realmente esqueci. Quando lembrei foi hoje de manhã, e não queria te acordar para dar a notícia, ainda te liguei antes de entrar no palco, mas seu celular devia estar desligado. Uau ele realmente parece preocupado que eu vá ficar chateada. E ficaria, se eu não tivesse assistido. — Não se preocupe. Eu sempre desligo quando vou dormir, principalmente no fim de semana, acordei tarde hoje. Sabe, eu fiquei curiosa, por que você riu daquele jeito? — Ele deve saber a que momento eu estou me referindo. Ele riu de novo. — Porque Andressa Amaral é uma cara de p*u sem tamanho. É formada em jornalismo há pouco tempo, e já conseguiu um emprego em um dos maiores programas do país. Só conseguiu aquela posição de destaque, por que está dormindo com o diretor. E ainda tem a cara de p*u de sugerir que você está fazendo a mesma coisa em rede nacional. Tive que me segurar para não perguntar se ela acha que você é igual a ela. Eu tive que rir, tem gente que é cara de p*u. Mas o Rafael logo muda de assunto — Olha, eu to tentando me controlar, mas estou realmente preocupado, aconteceu alguma coisa com sua amiga? Perguntei ao motorista se aconteceu alguma coisa, aliás desculpa por isso, mas ele não me respondeu nada, parece ser fiel a você. E olha que eu nem lhe pedi para não comentar nada. Ponto para ele. — Não, não aconteceu nada com a Poly. Foi só... Um pequeno problema com a minha mãe. — Pequenos problemas não deixam as pessoas com o olhar que você estava ontem. Franzi os lábios, porque ele estava certo, só não precisava saber disso. — Prefiro encarar como um pequeno problema, mas não vai se repetir. Ele fica em silêncio. — Olha, eu queria te pedir um favor. Você é um cara legal e eu acho que um dia vou conseguir te falar sobre esse tipo de problema, mas espera que eu te fale ok? Ele emitiu um som, como um riso contido. — O que te faz pensar que eu iria te investigar? Maneio a cabeça, mesmo que ele não possa ver. — Minha intuição me diz que você é um homem muito curioso. Ele ri. — Tudo bem, vou ter paciência. Preciso desligar, já tô na estrada novamente e eu estou prestes a ficar sem sinal. E ah, Lara... Siga sempre sua intuição, ela tende a acertar. Eu que ri dessa vez. — Pode deixar, se cuida e não vai trair sua namorada. — Já deu uma boa olhada nela? Seria um louco se fizesse isso. Ri alto. Estava aos poucos aprendendo a gostar do Rafael. Não, ele com certeza não era como eu pensava. Quando o via nos programas de TV imaginava que fora das câmeras ele fosse um cara chato, mesquinho e egoísta. Mas me surpreendi. Com seu jeito descontraído, sua maneira tão mansa e eficaz de fazer com que eu esqueça dos meus problemas, seu jeito de menino, e suas palavras maduras. Ele com certeza é muito mais do que se mostra ser, do que as pessoas permitem que ele se mostre. O fato é que olhando agora, não acredito que seja um sacrifício tão grande ser namorada de mentirinha de alguém como ele. Pra falar a verdade, estou até feliz de ter tido a oportunidade de conhecê-lo, com isso eu aprendi a não julgar. Tomei um banho e prendi o cabelo em um r**o de cavalo. Vesti uma calça jeans e uma blusa de frio jogando um sobretudo por cima, estava um dia frio lá fora, dava pra perceber pela neblina que se via pela janela. Chegando no estacionamento avistei, o motorista. — Olha, antes de mais nada eu queria te agradecer. Ele me olha confuso e eu me apresso em me explicar. — Soube que Rafael te perguntou o que houve ontem, e soube que você não disse. — Sei ser discreto senhora. — Ele respondeu com o canto esquerdo da boca subindo levemente para cima. — E agradeço por isso, não que eu queira ter segredos com o Rafael, mas não queria trazer o lado n***o da minha família para o nosso relacionamento recente, não acho que seja o momento ainda. De toda forma eu não minto. Tenho realmente um relacionamento recente com o Rafael, o de amizade. Então pelo menos dessa vez eu tenho um argumento para aliviar a minha consciência. — Compreendo Senhora. — Ele responde sério como sempre, e abre a porta do banco de trás para mim. — Para onde? — O HST. E não demoramos muito a chegar. O local como sempre, não era um caos como o hospital público que a Poly estava, que mais parecia um açougue com vários doentes feridos nos corredores, do que uma instituição de saúde, nos melhores dias, parecia um matadouro de animais. Mas quando entrei no local, havia uma TV enorme na sala de espera e algumas pessoas estavam ali, ao olhar o que se passava na TV eu congelei. Não era uma foto minha beijando o Rafael, na qual eu ficava parcialmente escondida, e sim uma foto minha que havia postado a pouco tempo em uma rede social, com a legenda: A nova namorada de Nero. Como se eu tivesse um imã em mim, todos os pares de olhos que estava no ambiente viraram-se para mim, e para o meu azar, tinha pelo menos cinco jovens entre quinze e vinte cinco, e justamente elas levantaram-se imediatamente e vieram até mim, enchendo-me de perguntas. Alguns que continuaram sentados sacaram o celular do bolso ou bolsa e começaram a tirar foto. — Você ta namorando com o Rafael? — Como ele é? — Ele beija bem? — Ele deve ser um amor não é? E essas foram as poucas perguntas que eu conseguir discernir daquele barulho irritante que se tornou o turbilhão de perguntas que me acometeu. — É eu sou. Ele é ótimo em todos os sentidos. — Consegui responder em uma altura considerável, suspiros e mais perguntas vieram e eu me apressei em contê-las — Eu peço desculpas por não poder ficar aqui, é que eu não estou em um momento bom e preciso ver minha amiga que está internada. Elas se entristecem, pelo visto tinham muito mais perguntas, para a minha tristeza, mas não dei tempo, ofereci um sorriso e saí de mansinho indo até o balcão da recepção. — Parece que você ficou famosa. — A recepcionista fala. — Infelizmente. Queria ver a Polyana. — Claro, final do corredor a direita. Só poderá ficar por quinze minutos o horário de visitas já está acabando. Concordo e sigo meu destino, pelo vidro da porta, dá para ver que Poly está assistindo TV. — Posso interromper o programa que parece te deixar tão entretida? — Pergunto entrando no quarto. Ela vira a cabeça para me ver e seu olhar ilumina. Vou até ela e a abraço, seu semblante parece muito melhor que ontem. — Poder, não podia, mas já que veio... — Ela diz rindo — Senta aí, to vendo você na TV. — Ela diz me fazendo olhar para a televisão para ver que minha foto continua lá, com a mesma legenda, enquanto uma mulher fica falando sobre mim. Pela segunda vez em um mesmo dia, sinto uma parte de mim querendo se rebelar contra isso, mas minha visão muda do foco para a figura e vejo minha amiga, deitada em uma senhora cama de hospital me assistindo na TV e rindo como se não estivesse com cancêr terminal. Se como consequência eu preciso aturar apresentadores de programas de fofoca falando sobre mim, então que aproveitem o assunto do momento.
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