A luz em cima da minha cabeça piscou mais uma vez, e mais outra antes que eu finalmente olhasse para trás.
Todos sabem as regras principais de filmes de terror, jogos de terror, histórias assustadoras contadas ao redor da fogueira ou o que seja.
Como dito no filme Pânico, tem as principais:
(1) nunca faça sexo - Essa já podemos riscar.
(2) Nunca beba ou use drogas - essa também dá pra ser riscada.
(3) Nunca diga que vai voltar, por que definitivamente você não vai. -Com essa eu não tenho que me preocupar
Mas eu gostaria de acrescentar uma outra, uma bem maior e mais relevante, que independente de ter quebrado as outras ou não, a preservação dessa única regra é crucial pra sobrevivência.
Nunca olhe para trás.
Bom, acontece que eu olhei pra trás. Foi involuntário mas eu olhei.
Eu olhei e vi aquela grande figura parada, usando uma máscara que eu reconheci muito bem, e imediatamente todas as peças se encaixaram dentro da minha cabeça.
Eu não era i****a de imaginar que ele tinha me seguido até aqui por puro capricho, mas talvez uma jogada SEM VERGONHA do destino tenha me jogado no mesmo ambiente que ele frequenta. Passou como um filme na minha cabeça, e não sei como não reconheci a voz dele, o timbre carregado, quase explosivo. Aquele ronronar que vem do fundo da garganta e que alimenta minhas fantasias mais perversas. Que ALIMENTOU minhas fantasias mais perversas, antes que ele invadisse a minha casa e usasse meu corpo como bem entendeu, ou fizesse qualquer coisa que ele esteja pensando em fazer comigo agora nesse estacionamento, enquanto me encara.
Ele ainda estava parado me encarando com um bom slasher faria, sua postura rígida bem no final da fileira de carros, como que esperando pra ver quando vai ser minha reação, se eu correria e gritaria por ajuda ou misericórdia, se eu ficaria parada e simplesmente abraçaria meu destino final, ou me esconderia debaixo do primeiro carro que visse, torcendo pra que ele fosse embora e me deixasse em paz.
Todas essas opções passavam na minha mente agora, com meus divertidamente brigando pra ver qual botão eles deveriam apertar. Enquanto isso, eu só conseguia ficar parada.
Até que ele enfim se mexe, mas não na minha direção, como pensei que faria.
Ele caminha até a parede da direita, passa pelos carros encostados e vai até uma daquelas caixas de segurança para caso de incêndio, ele bate forte com o cotovelo no vidro e pega o machado guardado lá dentro.
Meus alertas começam a soar alto e gritante, e meus pés começam a se mover sem que eu tenha tomado uma decisão do que fazer, aparentemente meu corpo decidiu sozinho.
Eu começo a me afastar dele, ainda mais, e percebo que eu estou usando os piores tipos de sapatos possíveis pra isso.
Eu ainda olho pra trás, mais uma vez, pra completar minha lista de burradas da noite, e olhei no tempo exato, pra ver ele segurando o machado na frente da gigantesca caixa de fusíveis do subsolo do prédio.
Ela é cinza, grande, com alertas de perigo nela que eu consigo ver a distância, identificando a grande caveira de "perigo" que serve pra fazer todos manterem distância.
Essa caveira não impede ele de empunhar o machado pra trás e acertar com tudo a maldita da caixa, deixando o machado preso lá enquanto as faíscas voam por toda a parte.
Isso me dá três segundos de raciocínio lógico antes que todas as luzes do estacionamento se apaguem e eu pare de correr, totalmente congelada no lugar e na escuridão.
Me arrependo do momento em que pensei m*l das luzes piscando, do como elas me assustavam e como parecia um claro cenário de terror. Eu daria tudo pra ter elas de volta.
Ele é louco, e eu estou totalmente no escuro, ouvindo apenas o som da minha própria respiração e um leve barulho de curto circuito vindo da direção da caixa, que de vez enquanto solta algumas faíscas que iluminam levemente ao redor dela e me mostram que o machado continua lá, ao contrário dele.
É óbvio que ele não está mais lá.
Meus instintos primordiais estão a todo o vapor agora. Aquela área do meu cérebro esquecida, que eu provavelmente herdei de alguma criatura que vivia em cavernas e fazia de tudo pra sobreviver. O mesmo tipo de criatura que temia o escuro, pois sabia que o que se escondia lá não devia ser enfrentado. A mesma criatura que sabia identificar um predador, e como é crucial para sua sobrevivência não se tornar alvo de um. Meus ancestrais conseguiram sobreviver, mas será que eu iria conseguir?
Me sinto familiarizada com aquele arrepio na espinha, como se ele já fizesse parte de mim depois de tanto tempo.
Minhas mãos estão suando, e eu consigo sentir a adrenalina correndo pelas minhas veias, sendo liberada aos montes pelo meu sistema nervoso como uma droga.
Até que eu ouço um barulho alto, e depois uma luz acende não muito longe de mim.
O farol de um carro ligado, piscando. Ele está parado na frente do carro e só consigo enxergar sua silhueta ainda mascarada.
O lado bom é que agora eu sei onde ele está, o lado r**m é que ele, além de também saber onde eu estou, não está muito longe de mim.
Eu volto a correr sem olhar pra trás dessa vez, a luz vindo da saída como minha porta de salvação. Não ouço seus passos, não ouço nada, só a porcaria da minha respiração ofegante.
Durante a corrida, faço o possível para achar o celular dentro da bolsa, e ligar a tela sem retirar o celular de dentro dela, com medo de que a claridade me denuncie na mesma hora. É só apertar o botão na lateral e tentar apertar o botão de chamada de emergência. A única coisa que penso é que preciso ligar pra polícia antes que ele me encontre. Mas todo o meu plano vai por água abaixo quando vejo o pequeno ícone de sem sinal no canto direito do celular.
Malditos prédios, malditos subsolos, malditas torres de celular sem acesso quando nós mais precisamos.
Eu volto meu olhar para a entrada, mais um pouco e eu consigo alcançá-la.
E é então que o universo, bondoso como ele é comigo, me dá mais um presente. Eu sinto a p***a do meu salto quebrar, e eu caio com tudo no chão.
Na minha cabeça passa um filme com os piores xingamentos e maldições possível que alguém poderia falar nessa situação, até mesmo os palavrões em italiano, que eu aprendi graças a internet. Mas eu não ouso falar nenhuma delas, mesmo que eu saiba que é impossível ele não ter me ouvido cair. Mesmo que eu saiba que é impossível que ele não me encontre a essa altura.
Ele sabe onde estou, e eu não ouço ele. Os carros piscam pelo caminho atrás de mim, mas ele não está na frente deles agora.
Eu me levanto, me sentindo humilhada e pensando que se eu estivesse em um filme, eu estaria morta antes da cena de a******a.
-Cassy... - Ele chama meu nome, quase cantarolando meu nome, como um maníaco.
Agora sim, eu juro ouvir seus passos ao meu redor, mas não sei exatamente em qual direção.
Olhando em volta pra todos os lados possíveis, enquanto tento controlar minha respiração eu tento ouvir mais alguma coisa. Eu tiro meu salto bom pra usar como arma mas assim que eu tiro ele pé eu sinto sua respiração no pé do meu ouvido. Perto demais.
-Indo embora tão cedo Cassy?
Eu sinto suas mãos em volta da minha boca e da minha cintura.
Ele me prende com força e eu grito, mas sai totalmente abafado. Eu começo a me debater em seus braços.
Ele me prensa no capô de um dos carros atrás de mim. Eu sinto a lataria lisa e gelada nas minhas costas, e na minha frente, além de sentir suas mãos eu sinto outra coisa bem dura pressionada na minha barriga.
-Você não deixa de me surpreender, sabia? - Ele fala bem próximo ao meu ouvido. -Me diga, você gosta de ser perseguida?
-Vai se f***r - eu falo quando ele afrouxa a mão em cima da minha boca.
-Mas que boquinha suja, você beija sua mãe com ela? Pelo visto também ensinar boas maneiras.
-Me deixa ir embora...
-Você não vai a lugar nenhum. Agora, você vai me responder quando eu te fizer uma pergunta. Você gosta de ser perseguida, Cassy?
Ele não espera minha resposta, ele enfia a mão por baixo das minhas roupas e insere dois de seus dedos dentro de mim, sem qualquer aviso prévio.
- Você consegue ouvir isso? - Ele começa a tirar e colocar o dedo em uma velocidade maior. Eu mordo meus lábios com toda a força quando um barulho molhado começa a ecoar pelo estacionamento, me denunciando. Tenho certeza de que ele está sorrindo debaixo daquela máscara - Você vai me dar trabalho. O que eu faço com você?
-Vai se f***r - Eu xingo ele mais uma vez, não conseguindo pensar em nada melhor pra dizer com seus dedos dentro de mim atingindo bem o centro do meu núcleo, mas até esse xingamento simples não sai da forma que eu queria, misturado com meus gemidos.
Ele tira a mão de dentro de mim e usa ela pra tirar a máscara, não soltando a mão que me prende no capô pela cintura.
Apesar da escuridão, graças a proximidade e a leve luz vinda da saída que eu quase fui capaz de alcançar, consigo ver seu rosto.
-Você não deveria ter vindo aqui esta noite.