não pense que pode fugir

918 Words
Henrique Acordei com uma sensação que há muito tempo não sentia: satisfação. Meu corpo relaxado, o cheiro dela ainda nos lençóis, e aquele calor bom se espalhando no peito. Sorri antes mesmo de abrir os olhos, revivendo na mente os gemidos da minha pequena na noite passada. Mas, ao virar para o lado, meu sorriso morreu. A cama estava vazia. Apenas o lençol amassado, o cheiro dela e uma mancha de sangue me encaravam como um tapa na cara. — Droga... Suspirei, passando a mão nos cabelos. Ela era virgem. E eu... fui bruto demais. De novo, minha impulsividade ferindo alguém. Olhei ao redor. A camiseta que ela usava estava no chão. Nenhum sinal dela. Nenhuma mochila. Nada. Levantei num pulo, olhei o relógio: já passava das nove da manhã. Dormi demais — coisa rara pra mim. Ela me fez dormir como um homem satisfeito. E agora sumia como se eu fosse um erro. Talvez eu tenha sido. Vesti minhas roupas com raiva. Não estava acostumado a ser deixado. As mulheres daqui sabiam que eu nunca repetia. Dormia, transava, mandava embora. Era assim. Sempre foi. E todas aceitavam isso. Mas aquela garota... ela mexeu comigo de um jeito que eu não esperava. Montei no meu cavalo e fui direto até a estrada. O carro dela já não estava mais lá. Alguém tinha guinchado. O rastro de lama ainda estava lá, como uma lembrança de que tudo realmente aconteceu. — Droga, Bela... pra onde você foi? Voltei pra casa irritado. Entrei batendo a porta, querendo distância de qualquer ser humano. — Agora não, Cidinha — falei seco, passando direto por ela. — Minha sobrinha chegou. Será que posso ir mais cedo pra casa? — ela perguntou com cuidado. — Vai. Só me deixa em paz — respondi, subindo as escadas. No espelho do banheiro, percebi os arranhões nas minhas costas. Sorri sozinho. — Gatinha sapeca... Tomei um banho longo, tentando apagar o cheiro dela do meu corpo, mas ele parecia impregnado em mim. Tentei aliviar o desejo com uma punheta rápida, mas não adiantou. Só ela conseguia me satisfazer daquele jeito. Depois do almoço — comida boa da Cidinha, como sempre —, fumei um cigarro na varanda enquanto a via sair animada pra ver a sobrinha. Se ela soubesse o que aconteceu naquela cabana... Percorri a fazenda toda no resto do dia, mas não vi o carro. Nem sinal da garota. Estava frustrado. Meu amigo João ligou chamando pra ir ao bar na cidade. — Vai ter umas gatinhas novas por lá — ele disse. — Vai esquecer essa aí rapidinho. Duvido. Fui mesmo assim. Camionete, chapéu, fivela no cinto com o desenho de cavalo e minha melhor cara de cafajeste. O bar estava cheio. João já estava com duas mulheres. Sentei, bebi, mas não senti nada. Nenhuma me atraía. — Que foi, Henrique? Tu sempre é o primeiro a pegar — ele riu. — Dormi com uma menina. Uma virgem. E agora não consigo parar de pensar nela. João gargalhou tão alto que o bar todo olhou. — Tá apaixonado, seu cavalo! Levou a primeira virgem da vida e agora tá assim? Que lindo. — Vai à merda — murmurei, virando a cachaça. Ele tentou me convencer a ficar com as duas. Disse que pegaria uma e eu outra. Mas eu me levantei, larguei o copo e disse: — Pode ficar com as duas. Eu tô indo embora. Voltei pra casa com uma raiva surda no peito. Raiva dela por ter fugido. Raiva de mim por ter me importado. --- Três dias se passaram. Eu não conseguia dormir direito. Andava m*l-humorado. Qualquer empregado que respirasse alto perto de mim levava bronca. E pra piorar, minha mãe vinha passar o fim de semana aqui. Com ela, vinha Alice — a garota que ela jurava que seria minha esposa. Alice já tinha dormido comigo, sim. Uma vez. E agora grudava em mim como carrapato. Não tinha um pingo da doçura de Bela. Era só um rostinho bonito e uma ambição chata de virar dona da fazenda. Saí de madrugada. Minha égua premiada estava em trabalho de parto. João já me esperava. Ficamos a madrugada inteira no estábulo. Foi demorado e difícil, mas no fim o potrinho nasceu saudável. Lindo. Me emocionei. Aquela vida nova me lembrava que ainda havia coisas boas no mundo. Voltei sujo, cansado e com a cabeça ainda em outro lugar. Precisava tomar banho, trocar de roupa e resolver um monte de coisas. À noite teríamos a tradicional fogueira com os empregados. Música, violão, carne assada e cachaça. Minha mãe adorava isso. E sempre que vinha, eu mandava preparar tudo pra fingir que a fazenda era um conto de fadas. Quando anoiteceu, todos começaram a chegar e se reunir em volta do fogo. Minha mãe estava radiante. Alice, claro, grudada em mim. Quase sentei longe, mas João apareceu e me salvou, puxando assunto. — Parece que tua cara melhorou. A égua te deu um potro, ou foi outra fêmea que te deixou assim? Eu ia responder alguma bobagem, mas então senti... Um perfume. Doce. Familiar. Queimou minhas narinas e congelou meu corpo. Virei devagar. Meus olhos encontraram os dela. Lindos, grandes, castanhos, assustados. Isabela. Cidinha apareceu logo atrás, sorridente, puxando-a pela mão. — Boa noite! Quero apresentar minha sobrinha Isabela. Ela vai ficar um tempo aqui conosco. Um sorriso brotou no meu rosto. Espontâneo. Quente. Faminto. Não pense que pode fugir de mim, Bela. Porque agora que sei que você está aqui... Não vai escapar mais.
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