POV: Yani
A noite estava carregada de mistério, o luar refletia em minha pele, me lembrando, não apenas como companheira de Brian, mas como algo além... uma Alfa. Minha força se multiplicou, meu corpo pulsava com energia desconhecida, mas os ecos das sombras ainda sussurravam ao meu redor. Os sonhos, antes fugidios, tornaram-se visões vívidas e incompreensíveis. Brian dizia que eu gritava durante a noite, algo que já acontecia antes de nos conhecermos, mas agora... agora era diferente. Era tão real.
Cadência, sem questionar, aceitou seu destino e deixou a casa principal da matilha. A residência de Cassandra foi reduzida a cinzas, nenhum resquício de magia sobreviveu. Seus seguidores foram punidos, sem piedade, sem exceções. A ordem foi clara: extirpar qualquer vestígio de ameaça.
Brian, assim como eu, sentiu mudanças. Uma nova habilidade surgiu nele, um instinto aguçado capaz de detectar mentiras, eu sentia antes, agora o mesmo sentido se fixou a ele. Sua força também cresceu. Apenas seus pais conheciam nossos "dons".
Entro no escritório sem bater. Ele já havia me pedido que nunca batesse na porta.
— Amor, tem um tempo? Preciso te contar algo — minha voz vacila, um frio incômodo serpenteia pela minha espinha.
Ele ergue os olhos dos papéis, deixando tudo de lado para me encarar com intensidade.
— Sempre tenho tempo para você — responde com um sorriso, aquele sorriso bobo que sempre me desarma.
Não omito nada. Conto sobre o sonho na cachoeira, sobre a verdade sombria da morte dos meus pais. Cada detalhe. Cada pedaço da dor. E os sonhos de alguém invadindo a alcateia, matando todos e me levando com ele.
— Querida, nada vai nos separar. Somos destinados. Se alguém ousar se aproximar de você com más intenções, terá que enfrentar a mim e a toda a matilha. Eles a amam tanto quanto eu.
Seu tom firme me aquece o peito, e involuntariamente, sorrio.
— Quero visitar minha avó. Desde o festival não a vejo. Preciso de algumas respostas.
Ele apenas acena em concordância.
— Depois do seu treino com os guerreiros? Eles não gostam de esperar — brinca, arrancando de mim uma risada breve.
...
A estrada até a casa da vovó é silenciosa, mas meu coração se agita ao avistar a cachoeira. O lugar onde meus pais morreram. Uma dor profunda se instala em mim.
Ao descer do carro, vejo vovó em sua cadeira de balanço, como sempre. Ela não era uma idosa, mas ainda assim age como se tivesse noventa anos, tecendo roupas de tricô. Um sorriso escapa ao perceber isso.
— Como está, vovó? — abraço-a com força.
— Feliz pela visita, minha linda — responde com ternura, mas seus olhos cintilam com conhecimento oculto.
— Está cuidando bem dela, Brian? Se não estiver, terá que se entender comigo — diz em tom brincalhão, arrancando risadas de nós dois.
Mas ela sabe. Sabe que minha visita não é apenas um encontro casual.
— Então, minha neta, a que devo a honra desta visita? — pergunta, perspicaz.
Tento despistá-la, mas seu olhar desconfiado me atravessa. Conversamos sobre trivialidades, até que Brian percebe minha necessidade de um momento a sós.
— Amor, vou levar Adam para correr perto do rio, ele está agitado para ir lá — diz ele, beijando minha testa e se afastando.
Vovó observa até ele sumir entre as árvores antes de se inclinar para mim.
— Pergunte, querida. Não tenha medo.
— Meus sonhos... Eles estão diferentes. Intensos. Às vezes, parecem reais. Não sei o que fazer.
Ela suspira, levanta-se e entra em casa, retornando com uma pequena caixa de madeira. Dentro, ervas que não reconheço.
— Faça um chá, adicione uma gota do seu sangue e dê para aqueles que precisam de força para proteger a matilha. Você precisará terminar o que começou.
Um arrepio me percorre.
— Terminar o quê?
Os olhos de vovó se tornam distantes, sombrios.
— Ele virá atrás de você. Como o pai dele veio atrás de mim. Eu era mais forte e matei todos. O Alfa nos acolheu, sua mãe e eu. Me confiou seu segredo. Seus sonhos continuarão até ele chegar. Assim foi comigo. Quando pararam... eu soube que seu pai estava morto.
O peso da revelação me faz emudecer.
— Sua marca dói?
Abaixo a cabeça em confirmação. Tenho uma marca em região sacral em forma de rosa e uma lua cheia uma ao lado da outra.
— Liam não faz ideia do quão poderosa você é. Apenas sabe que é mestiça. Ele fará de tudo para tê-la.
— Isso nunca vai acontecer — sussurro, determinada. — O que ele quer?
— Poder. Ele também é mestiço, mas sua única habilidade é a força bruta. Nenhum lobo comum pode enfrentá-lo. Nem mesmo um Alfa...
— Brian pode lutar com ele. Sua força também cresceu. Ele está preparado.
Vovó acena, concordando.
— O chá fortalecerá os guerreiros. Não como vocês dois, mas o suficiente para resistirem.
Ela me entrega um copo com o líquido quente.
— Beba. Te dará um pouco de paz esta noite. Apenas por uma ou duas noites.
Obedeço sem hesitar. O calor do chá desce pela minha garganta, e uma sensação de calma me envolve. Conversamos por mais um tempo até Brian retornar.
O pôr do sol na casa de vovó é deslumbrante. Ficamos ali, absorvendo o momento, antes de voltarmos para a matilha.
...
Ao caminharmos pela aldeia, decido fazer algumas compras, quando vejo Anderson descarregando suprimentos no açougue.
— Anderson, como está Sueli? Faz tempo que não a vejo. Imagino que esteja ocupada com a cozinha — sorrio, estendendo a mão.
Ao tocá-lo, o mundo parece parar. Ao redor dele, uma sombra vermelha pulsa. Um presságio. Um sinal.
Minha mente se afunda no vazio até sentir Brian tocar meu ombro.
— Amor? Estou ficando com ciúmes — brinca, mas percebo a tensão em sua voz.
Solto a mão de Anderson e a sombra desaparece. Meu coração bate acelerado. Ele é um dos escolhidos.
Olho para Brian e digo, sem espaço para questionamentos:
— Quero Anderson como um dos guerreiros principais da alcatéia.
Brian com um olhar confuso, apenas assente.
Anderson está distraído com a carga e não percebe o que converso com Brian, após conversamos sobre assuntos aleatórios até que nos despedimos.
...
De volta ao nosso quarto, guardo a caixinha com as ervas, tomo um banho e me deito. A escuridão me abraça rapidamente.
...
"Onde estou?" O cenário se forma ao meu redor. O campo de treinamento. Vejo Brian, imponente, ao lado de Alexsandro. Atrás deles, Anderson, Jorge, e mais seis guerreiros, todos envoltos na mesma sombra vermelha. Todos prontos para lutar.
E então, meus olhos se voltam para o outro lado.
Outro grupo. Outra presença.
É ele.
Alto, de cabelos escuros caindo sobre os ombros. Sua presença é esmagadora. Seus olhos encontram os meus.
E então ele fala:
— Finalmente nos encontramos."
OBS.: Obrigado a todos por acompanharem minha estória até aqui!! Muita grata a vocês. Estamos prestes a começar as cenas de lutas!!!