Bem-vinda ao submundo

1461 Words
Ao amanhecer levanto assustada sem saber ao certo se o que aconteceu foi apenas um sonho ou realidade e eu tinha que admitir que estava com medo se realmente fosse realidade, já havia muito tempo desde que eu tinha o visto no mosteiro e talvez fosse só minha mente pregando uma peça. Depois da minha oração e de ter feito minhas higienes saio do quarto indo para o de Marco. Chego lá não o encontrando, desço as escadas topando com um rapaz limpando a lareira. — Oi, bom dia, sabe onde está Marco? — Bom dia senhorita. Está no estábulo com os cavalos! — Fala voltando a limpar a lareira. — Onde fica ? — Logo atrás da casa, segue o caminho das pedras e você vai ver. — Obrigada. Vou para a parte de trás e sigo pelo caminho de pedras brancas. As gargalhadas de Marco são ouvidas de longe, então não foi fácil de encontrá-lo escovando o pelo de uma potranca. — Oi Marco. — Sorrio ao ver sua animação. — Bom dia — fala empolgado vindo me abraçar. — Dormiu bem? — mecho em seus cabelos. — Muitoo bem — E porque está acordado tão cedo? Que tal entrarmos e tomarmos um banho ? Hum? — Deixa eu ficar só mais um pouquinho aqui com o papà ? — Ah claro, e onde está ele? — Está pegando água para os cavalinhos. — tira os cabelos dos olhos. — Quer que eu prenda ? — Isso é coisa de menina — Ei, claro que não. Podemos prender e continuará lindo. — Tá bom então. — tiro um elástico do pulso prendendo o cabelo dele em um coque. — Uau, que gatinho. — digo e ele mia para mim fazendo-me gargalhar. — Quer me ajudar tia? — Sim, mas como faz ? — É facinho, só pegar isso aqui. — Mostra a escova nas mãos. — e passa no pelo do cavalinho. — Hum, ok. Pego uma das escovas e passo no pelo. — Legal né ? Ela se chama Auvora. — Auvora? — Sim, não gostou? — Gostei sim, só é diferente — rio. — Com quem está conversando Marco? — Ouço alguém se aproximar e eu me viro vendo-o novamente, não foi um sonho meu subconsciente gritava para mim. Ele estava sem camisa, exibindo suas tatuagens e sua cicatriz também. Ele me olha dos pés a cabeça, a ruga se forma por entre suas sobrancelhas e eu poderia dizer que ele estava com raiva, muita raiva. — Helena minha nova amiga — fala alegre — Ela veio cuidar de mim, papà. — Sua palavra me atinge em cheio. — Pai? — é a única coisa que consigo pronunciar, só então eu percebia a semelhança entre os dois. — O que p***a uma freira está fazendo aqui? Não tinham uma pessoa melhor para escolherem? — Olha para minha veste. — Seu pai não é Luigi? — pergunto para Marco. — Não bobinha. — Marco responde descontraidamente. — Ah meu Deus... — exclamo alto. — Não chame por Deus enquanto olha para mim. — murmura. — Marco, porque não entramos logo para tomar banho ? Você está cheirando igual aos cavalinhos. — Credo. — ele fala se levantando e correndo para a casa. Vou logo atrás mas ele agarra o meu braço. — Quando eu falo algo, você escuta, quando eu perguntar algo, você responde, entendeu freirinha ? Caso contrario você vai morrer antes de perceber. Aqui, na minha casa o maior princípio é a submissão, a mim. Não teria dó de puxar minha arma e estourar seus miolos. — me solta com força fazendo-me dar alguns passos para trás. Meu coração ultimamente estava passando por muitos testes, sentia meu coração bater em minha garganta, seguro a baía do hábito e saio às presas. Suas palavras rodavam minha mente, subo as escadas com presa e entro no quarto de Marco, ouço ele cantar baixinho enquanto a água se chocava contra o chão. — E então cavalinho, já está tomando banho? — Já sim tia, a senhora está bem? — Estou sim. — Sorrio tentando tranquiliza-lo. — Papà não brigou contigo né ? — Não, não. Está tudo bem, fica tranquilo. — Podemos voltar pro estábulo? — Porque não tomamos um café primeiro? Pra continuar fortão e ver a mamãe precisa se alimentar bem, e sem cereais no almoço. — Gosto de cereais. — fala manhoso. — Eu também gosto, mas no café da manhã. Ajudo ele a se vestir e penteio seus cabelos deixando bagunçado como ele falou. Marco estava muito mais animado que ontem, vamos para a mesa que já está posta. — Que tal se comermos alguns morangos com mel e granola? É bem gostoso. — Ainda vou ficar com fome. — fala engraçado. — Você realmente é uma graça, é só para começar. Café da manhã tem que ser reforçado mesmo, sem falar que agora pode comer cereal. — E quando ele não pode ? — O homem aparece em meu campo de visão fazendo meu coração se acelerar novamente e eu me apreso em responder. — Não acho que seja conveniente ele almoçar cereal. — Ele come o que quiser, não será você a impor limites a ele. — fala se sentando e me olhando com repulsa. — Não é impor limites, só não quero que ele fique doente por não fazer uma refeição com o que ele realmente necessita. — E você é quem mesmo? Uma nutróloga? — sua sobrancelha está arqueada e sua mão está apoiada sobre a mesa como quem me desafiava a responder, podia ver que seus olhos cintilavam como se estivessem pegando fogo. — Eu vou almoçar papà, quero ficar fortão como o senhor e conseguir ver a mama. — Que história é essa de ver aquela v***a? — Olha duro para o menino. — Como você pode falar assim como ele ? — Pergunto sentindo algo inexplicável dentro de mim. — Porque está se metendo nisso freira? — Larga um soco na mesa fazendo eu e Marco saltar. — Porque não deveria estar tratando ele assim, tenha mais respeito. — Me levanto e ele faz o mesmo agarrando meu braço e me puxando para a sala. — Papà, per favore. Não vai matá-la, vai ? — Ouço Marco gritar entre soluços. — Não é da sua conta Marco, vá tomar seu café. — Diz alto e o garoto retorna a sala de jantar. Eu estava estática, não conseguia falar nada, meu olhos estavam arregalados sem conseguir digerir o que tinha acabado de sair dos lábios daquele pequeno, me levando a crer que não era a primeira vez que ele fazia isso com alguém. Ele já havia matado outras pessoas e o pior de tudo era como isso era tratado com o Marco, de uma forma aberta como se fosse tão natural. Sou arrastada para um escritório e jogada contra uma cadeira, meu quadril bate contra o braço da poltrona fazendo-me grunhir de dor. Ele tira uma arma da cintura colocando sobre a mesa ao meu lado. — Terei uma conversa franca contigo, faz alguns dias que eu não mato ninguém e olha... — ele balança a cabeça — Isso é a única coisa que realmente me acalma, além de sexo, então me diga Helena, como resolveremos isso, devo te matar ? Ou te comer ? — me encara aguardando uma resposta, não conseguia formular nada. A ver meu estado de choque ele pega a arma engatilhando. — Pelo amor de Deus, só estou aqui pelo menino. — Não está mais tão corajosa freira? Pensei que me enfrentaria novamente. O que te faz pensar que eu não a mataria aqui e agora? O que te faz pensar que você é diferente de todas as outras dezenas de pessoas que eu já matei? Não sou tão paciente com má-criação então me responda. — Eu te salvei — digo a primeira coisa que me vem à mente. — Me salvou? — Gargalha alto. — Você estava caído num beco em Roma, eu estava passando de carro e vi que precisava de ajuda, te levamos para o mosteiro, naquele dia fiquei de castigo até as seis da manhã por ter chegado tarde demais no meu quarto. E quando voltei na enfermaria você já não estava mais. — E você acha que eu deveria ter piedade de você por isso? Sinto te dizer, mas deveria ter me deixado lá para morrer. — Nunca faria isso. — Você ajudou o d***o a voltar ao submundo. — ele abre os braços para indicar que aquele lugar era o submundo. — O que quer dizer com isso? — pergunto incrédula. — Eu sou Dante Santoro, o Don da máfia siciliana, sou o dono do submundo, bem-vinda Miele.
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