Ao amanhecer levanto assustada sem saber ao certo se o que aconteceu foi apenas um sonho ou realidade e eu tinha que admitir que estava com medo se realmente fosse realidade, já havia muito tempo desde que eu tinha o visto no mosteiro e talvez fosse só minha mente pregando uma peça. Depois da minha oração e de ter feito minhas higienes saio do quarto indo para o de Marco. Chego lá não o encontrando, desço as escadas topando com um rapaz limpando a lareira.
— Oi, bom dia, sabe onde está Marco?
— Bom dia senhorita. Está no estábulo com os cavalos! — Fala voltando a limpar a lareira.
— Onde fica ?
— Logo atrás da casa, segue o caminho das pedras e você vai ver.
— Obrigada.
Vou para a parte de trás e sigo pelo caminho de pedras brancas. As gargalhadas de Marco são ouvidas de longe, então não foi fácil de encontrá-lo escovando o pelo de uma potranca.
— Oi Marco. — Sorrio ao ver sua animação.
— Bom dia — fala empolgado vindo me abraçar.
— Dormiu bem? — mecho em seus cabelos.
— Muitoo bem
— E porque está acordado tão cedo? Que tal entrarmos e tomarmos um banho ? Hum?
— Deixa eu ficar só mais um pouquinho aqui com o papà ?
— Ah claro, e onde está ele?
— Está pegando água para os cavalinhos. — tira os cabelos dos olhos.
— Quer que eu prenda ?
— Isso é coisa de menina
— Ei, claro que não. Podemos prender e continuará lindo.
— Tá bom então. — tiro um elástico do pulso prendendo o cabelo dele em um coque.
— Uau, que gatinho. — digo e ele mia para mim fazendo-me gargalhar.
— Quer me ajudar tia?
— Sim, mas como faz ?
— É facinho, só pegar isso aqui. — Mostra a escova nas mãos. — e passa no pelo do cavalinho.
— Hum, ok.
Pego uma das escovas e passo no pelo.
— Legal né ? Ela se chama Auvora.
— Auvora?
— Sim, não gostou?
— Gostei sim, só é diferente — rio.
— Com quem está conversando Marco? — Ouço alguém se aproximar e eu me viro vendo-o novamente, não foi um sonho meu subconsciente gritava para mim. Ele estava sem camisa, exibindo suas tatuagens e sua cicatriz também. Ele me olha dos pés a cabeça, a ruga se forma por entre suas sobrancelhas e eu poderia dizer que ele estava com raiva, muita raiva.
— Helena minha nova amiga — fala alegre — Ela veio cuidar de mim, papà. — Sua palavra me atinge em cheio.
— Pai? — é a única coisa que consigo pronunciar, só então eu percebia a semelhança entre os dois.
— O que p***a uma freira está fazendo aqui? Não tinham uma pessoa melhor para escolherem? — Olha para minha veste.
— Seu pai não é Luigi? — pergunto para Marco.
— Não bobinha. — Marco responde descontraidamente.
— Ah meu Deus... — exclamo alto.
— Não chame por Deus enquanto olha para mim. — murmura.
— Marco, porque não entramos logo para tomar banho ? Você está cheirando igual aos cavalinhos.
— Credo. — ele fala se levantando e correndo para a casa. Vou logo atrás mas ele agarra o meu braço.
— Quando eu falo algo, você escuta, quando eu perguntar algo, você responde, entendeu freirinha ? Caso contrario você vai morrer antes de perceber. Aqui, na minha casa o maior princípio é a submissão, a mim. Não teria dó de puxar minha arma e estourar seus miolos. — me solta com força fazendo-me dar alguns passos para trás.
Meu coração ultimamente estava passando por muitos testes, sentia meu coração bater em minha garganta, seguro a baía do hábito e saio às presas. Suas palavras rodavam minha mente, subo as escadas com presa e entro no quarto de Marco, ouço ele cantar baixinho enquanto a água se chocava contra o chão.
— E então cavalinho, já está tomando banho?
— Já sim tia, a senhora está bem?
— Estou sim. — Sorrio tentando tranquiliza-lo.
— Papà não brigou contigo né ?
— Não, não. Está tudo bem, fica tranquilo.
— Podemos voltar pro estábulo?
— Porque não tomamos um café primeiro? Pra continuar fortão e ver a mamãe precisa se alimentar bem, e sem cereais no almoço.
— Gosto de cereais. — fala manhoso.
— Eu também gosto, mas no café da manhã.
Ajudo ele a se vestir e penteio seus cabelos deixando bagunçado como ele falou.
Marco estava muito mais animado que ontem, vamos para a mesa que já está posta.
— Que tal se comermos alguns morangos com mel e granola? É bem gostoso.
— Ainda vou ficar com fome. — fala engraçado.
— Você realmente é uma graça, é só para começar. Café da manhã tem que ser reforçado mesmo, sem falar que agora pode comer cereal.
— E quando ele não pode ? — O homem aparece em meu campo de visão fazendo meu coração se acelerar novamente e eu me apreso em responder.
— Não acho que seja conveniente ele almoçar cereal.
— Ele come o que quiser, não será você a impor limites a ele. — fala se sentando e me olhando com repulsa.
— Não é impor limites, só não quero que ele fique doente por não fazer uma refeição com o que ele realmente necessita.
— E você é quem mesmo? Uma nutróloga? — sua sobrancelha está arqueada e sua mão está apoiada sobre a mesa como quem me desafiava a responder, podia ver que seus olhos cintilavam como se estivessem pegando fogo.
— Eu vou almoçar papà, quero ficar fortão como o senhor e conseguir ver a mama.
— Que história é essa de ver aquela v***a? — Olha duro para o menino.
— Como você pode falar assim como ele ? — Pergunto sentindo algo inexplicável dentro de mim.
— Porque está se metendo nisso freira? — Larga um soco na mesa fazendo eu e Marco saltar.
— Porque não deveria estar tratando ele assim, tenha mais respeito. — Me levanto e ele faz o mesmo agarrando meu braço e me puxando para a sala.
— Papà, per favore. Não vai matá-la, vai ? — Ouço Marco gritar entre soluços.
— Não é da sua conta Marco, vá tomar seu café. — Diz alto e o garoto retorna a sala de jantar. Eu estava estática, não conseguia falar nada, meu olhos estavam arregalados sem conseguir digerir o que tinha acabado de sair dos lábios daquele pequeno, me levando a crer que não era a primeira vez que ele fazia isso com alguém. Ele já havia matado outras pessoas e o pior de tudo era como isso era tratado com o Marco, de uma forma aberta como se fosse tão natural.
Sou arrastada para um escritório e jogada contra uma cadeira, meu quadril bate contra o braço da poltrona fazendo-me grunhir de dor.
Ele tira uma arma da cintura colocando sobre a mesa ao meu lado.
— Terei uma conversa franca contigo, faz alguns dias que eu não mato ninguém e olha... — ele balança a cabeça — Isso é a única coisa que realmente me acalma, além de sexo, então me diga Helena, como resolveremos isso, devo te matar ? Ou te comer ? — me encara aguardando uma resposta, não conseguia formular nada. A ver meu estado de choque ele pega a arma engatilhando.
— Pelo amor de Deus, só estou aqui pelo menino.
— Não está mais tão corajosa freira? Pensei que me enfrentaria novamente. O que te faz pensar que eu não a mataria aqui e agora? O que te faz pensar que você é diferente de todas as outras dezenas de pessoas que eu já matei? Não sou tão paciente com má-criação então me responda.
— Eu te salvei — digo a primeira coisa que me vem à mente.
— Me salvou? — Gargalha alto.
— Você estava caído num beco em Roma, eu estava passando de carro e vi que precisava de ajuda, te levamos para o mosteiro, naquele dia fiquei de castigo até as seis da manhã por ter chegado tarde demais no meu quarto. E quando voltei na enfermaria você já não estava mais.
— E você acha que eu deveria ter piedade de você por isso? Sinto te dizer, mas deveria ter me deixado lá para morrer.
— Nunca faria isso.
— Você ajudou o d***o a voltar ao submundo. — ele abre os braços para indicar que aquele lugar era o submundo.
— O que quer dizer com isso? — pergunto incrédula.
— Eu sou Dante Santoro, o Don da máfia siciliana, sou o dono do submundo, bem-vinda Miele.