Cara sentiu a sua mente nublar. Em um segundo havia apenas a escuridão, então, quando os seus olhos se abriram, ela despertou em meio a um monte de olhares voltados em sua direção. Mas sua mente ainda estava presa ao que tinha acontecido minutos atrás, e seu corpo ainda tremia só de imaginar o que poderia ter ocorrido.
Em um canto, Cara observava Rycon a olhando e, quando ele deu um passo em sua direção, o seu corpo inteiro estremeceu.
— Fique longe de mim! — gritou ela, com lágrimas descendo pelo rosto e as mãos se apertando ainda mais ao seu redor.
Rycon travou. O olhar de todos estava sobre ele naquele momento, mas aquilo não lhe importava. Os seus olhos estavam presos em Cara e na forma como ela se agarrava a si mesma. Ele podia ver os nós dos dedos dela brancos pela força com que se prendia à própria roupa.
— Cara… — começou ele, mas a mão de sua mãe o impediu.
As pálpebras estavam fechadas com força. Cara queria que as lembranças que ainda dançavam em sua mente desaparecessem, mas, ao abrir os olhos novamente, percebeu que nada tinha sumido. A visão estava turva, embaralhada. Sentiu o toque quente em sua mão, firme, mas incrivelmente suave. O coração acelerou outra vez — por instinto, ela tentou afastar-se.
— Calma… — a voz de Mira veio baixa, quase inaudível. — Você está segura aqui.
Ela piscou algumas vezes até que o rosto de Mira surgiu com nitidez. Não era Arthur quem segurava a sua mão. Era Mira. Os traços dela estavam tensos, marcados pela preocupação. O olhar carregava perguntas não respondidas, mas, naquele momento, se misturava a cuidado e ternura.
Ainda assim, a mente de Cara oscilava entre passado e presente. O corpo tremia involuntariamente, cada fibra sua preparada para fugir.
— Não me toque… — sussurrou, quase sem voz, puxando a mão com esforço.
Diante da reação de Cara, Mira recuou e suspirou. Ela podia ver que a mulher à sua frente não estava bem e não desejava piorar a situação.
— Está bem… não vou tocar em você. — respondeu com uma calma que parecia exigir-lhe cada pedaço de autocontrole. — Mas precisa conversar com o doutor e deixar que ele a ajude, está bem?
A voz de Mira era calma e um tanto relutante. Ela assentiu para a mãe.
— Pode usar a sala do César, doutor. E vá com eles, Ivy, ela deve se sentir mais confortável com alguém que conhece.
— Sim, senhora. — disse Ivy, estendendo a mão para Cara. Um tanto relutante, ela aceitou e acompanhou o doutor até o escritório de César.
O silêncio que se seguiu foi pesado, interrompido apenas pelo som entrecortado da respiração de Cara. Ela levou a mão ao peito, tentando controlar o ritmo, como se quisesse convencer-se de que ainda estava ali, de que não tinha voltado ao inferno de antes.
Rycon olhava para Cara sem acreditar no que tinha presenciado. A raiva que sentira minutos antes parecia agora absurda, mesquinha. Ele não entendia o que havia acontecido para que ela ficasse daquela forma, mas, pelo jeito como a viu entrar na sala de seu pai, decidiu que procuraria uma forma de descobrir.
— O que aconteceu aqui, filho? — perguntou Mira, com olhos afiados.
Rycon suspirou diante da pergunta da mãe. Ele mesmo não sabia o que tinha acontecido.
— Não sei, estávamos conversando. Então ela foi grosseira comigo, como sempre, e, quando a segurei, simplesmente entrou em pânico e acabou desmaiando.
A cada palavra que saía da boca de Rycon, seus pais ficavam mais chocados, sem acreditar que o menino que haviam criado com tanto amor e ternura pudesse ter agido daquela forma.
— Não acredito que fez isso, Rycon. — disse Mira, balançando a cabeça, chateada.
— Não se toca em alguém sem a permissão dela, Rycon, ainda mais em uma mulher. — disse César.
— Eu não fiz nada de errado. — disse ele, com o maxilar rijo de raiva.
— A forma como encontramos a garota prova que você fez. — insistiu Mira.
— Espero que saiba se desculpar de forma adequada com ela depois, Rycon. Esse seu comportamento foi decepcionante. — disse César, com tristeza.
Cara fechou os olhos por um instante, lágrimas quentes deslizando pelo rosto. A dor não era só pelo que sentira naquele instante, mas pelo que fora forçada a reviver. Ivy a acomodou no pequeno sofá do escritório de César e se sentou ao seu lado, segurando a sua mão.
— Senhorita, pelo que pude observar, você teve um ataque de pânico minutos atrás. — disse o médico, olhando fixamente para Cara.
— Eu... eu não sei. — Cara nunca tinha passado por aquilo em sua vida e não sabia que poderia ter desenvolvido algum tipo de distúrbio por causa das agressões vividas.
— Estou certo quanto a isso, mas preciso saber o motivo para que possamos evitar essas situações no futuro. — disse o médico com paciência. — Não se preocupe, o que me disser estará em sigilo médico.
— Eu... eu não quero falar sobre isso. — disse ela, desviando o olhar do médico.
— Tudo bem, não vou insistir, mas lembre-se de evitar essas situações e procurar ajuda médica para superar isso. Vou deixar alguns calmantes que a ajudarão caso aconteça novamente. — disse ele, tirando alguns frascos da bolsa e prescrevendo uma receita. — Tire o resto do dia de folga, você não está em condições de voltar ao trabalho.
Ainda assim, o medo não se dissipava tão rápido. O seu corpo ainda estava em alerta, e a mente repetia imagens que demorariam a desaparecer. Cara não respondeu. Apenas ficou ali, respirando fundo, tentando reencontrar o chão sob os pés.
— Obrigada, doutor. — disse ela, enquanto o médico saía.
Cara respirou fundo, a vergonha do que tinha acontecido inundando sua mente — e não apenas isso, mas também a humilhação que vinha com toda aquela situação, tudo por culpa de alguém que havia retribuído o seu amor com agressões.