Rycon saiu da enfermaria resmungando, cada passo ecoando no corredor estreito. A expressão carregada deixava claro que não queria conversa, mas Luciano, como sempre, o seguia em silêncio respeitoso. Seu chefe não estava de bom humor, e tudo o que ele desejava era que Rycon não se estressasse mais — caso contrário, teria que lutar para encontrar outro veterinário que aceitasse trabalhar na fazenda.
A fama de Rycon não era boa entre os veterinários. Ele era exigente — e até pegava pesado às vezes —, mas eram poucos os que se arriscavam a trabalhar com ele.
— Esses veterinários… — murmurou Rycon, passando a mão no rosto, como se tentasse esfregar junto o peso das últimas horas. — Se ela não me der o que quero, já sabe o que fazer, Luciano.
— Sim, patrão — respondeu Luciano, engolindo em seco.
Ele apenas ajustou o chapéu na cabeça e seguiu para o jipe, onde Rycon já estava sentado, batucando os dedos no volante com impaciência. O motor rugiu, e o caminho até a sede da fazenda foi feito em silêncio, exceto pelo barulho das pedras sob os pneus e o rangido ocasional da suspensão.
Ao entrarem, o aroma de café fresco os recebeu primeiro. Marta estava no mesmo lugar de sempre, perto da janela, com uma xícara fumegante na mão. O olhar dela pousou em Rycon, avaliando-o de cima a baixo.
— Sente-se — disse, estendendo-lhe a xícara. — Está precisando.
Rycon suspirou fundo, pegou o café e afundou-se em uma das poltronas da sala, resmungando:
— Café não vai resolver nada, Marta.
— Ficar de cara fechada e com o estômago vazio também não — retrucou ela, já seguindo para a cozinha. — Vou preparar um lanche. Pense melhor enquanto isso.
Luciano, encostado na porta, precisou morder o lábio para não rir. Naquela fazenda, só havia uma pessoa que se atrevia a falar com o patrão daquele jeito — e era a mulher que tinha sido babá dele na juventude, sua esposa destemida.
— Está ficando petulante — resmungou Rycon, olhando para a porta da cozinha.
— Não, patrão… ela só se preocupa com o senhor — respondeu Luciano, com um leve sorriso. — E por isso fala com o senhor desse jeito.
Rycon bebeu um gole do café, sem dizer nada, os olhos fixos no chão. O silêncio se alongou até que ele o quebrou:
— Sobre os touros… Não acredito que seja doença. Então deve ter sido o remédio para carrapatos mesmo. Só espero que aquela mulher consiga encontrar logo o motivo.
— Pode ser que seja realmente o remédio — sugeriu Luciano, puxando uma cadeira e se sentando. — Alguma falha na nova fórmula. Ao menos, se for isso, eles serão obrigados a indenizar a fazenda pelas perdas.
— E se não for o remédio? — Rycon levantou o olhar, a expressão endurecendo. — Teremos um problema bem maior ao investigar isso.
Luciano cruzou os braços.
— Não acho que chegará a tanto. Se fosse outra coisa, já teríamos outros animais morrendo. Os únicos que foram afetados foram os touros.
— Você está certo sobre isso — disse ele, frustrado, passando a mão pelos cabelos. — Só espero que ela se apresse com esses exames.
Marta voltou com uma bandeja de pães e queijo, interrompendo a tensão por um instante. Colocou-a sobre a mesa, como se não tivesse ouvido nada.
— Coma. Pensar de barriga vazia só dá ideia torta.
Rycon pegou um pedaço de pão, mas não relaxou.
— Vamos fazer uma coisa, Luciano… — disse, olhando fixamente para ele. — Quero que refaça toda a ronda. Revise os estoques de ração e verifique os bebedouros, apenas por precaução.
Luciano assentiu, já entendendo que a noite seria longa.
— Pode deixar.
Do lado, Marta apenas balançou a cabeça.
— Vocês dois são teimosos como mulas… mas ainda bem que são bons no que fazem.
— Olha quem fala de teimosia — disse Rycon com um sorriso de canto.
— Sou teimosa mesmo. Ou acham que eu aguentaria vocês dois se não fosse? — perguntou ela, com a mão na cintura.
Rycon e Luciano se entreolharam e começaram a rir das palavras de Marta.
— Acho que está certa — disse Rycon.
— Estou mesmo. E, fora eu, apenas a senhora vocês ouvem por aqui.
— Não se preocupe, em breve ela estará de volta — respondeu Rycon, pensando na briga que o pai estava causando com a sua mãe.
— Pelo que vejo, teremos problemas quando a senhora Mira voltar — disse Marta, rindo.
— Infelizmente, meu pai nunca sabe quando desistir — comentou ele.
— Ele é um homem esperto, sabe como lidar com a senhora Mira — respondeu Marta, rindo. Ela já tinha assistido a várias brigas de seus patrões, e sempre terminava da mesma forma: com César fazendo as pazes com Mira.
— O patrão ama muito a senhora, é por isso — disse Luciano, rindo.
— E você, velho? Me ama? — perguntou ela, com a mão na cintura.
— Mas é claro, minha velha. Você é a tampa da minha panela — respondeu ele.
— Acho bom mesmo, ou vai ter problemas — disse ela, virando as costas e saindo.
— Você tem problemas — disse Rycon, com um olhar sugestivo para Luciano.
— Tenho, mas sei como domar aquela fera — respondeu ele, fazendo Rycon rir.
— Apenas vocês para me distrair de tantas coisas ruins, Luciano… — Às vezes, tudo o que Rycon queria era se enfiar na fazenda e esquecer a vida na cidade, mas sabia que isso não estava ao seu alcance.
— Tudo vai se ajeitar, patrão. As coisas às vezes são bem mais fáceis do que o senhor pensa — disse Luciano. Ele sabia que Rycon fazia um bom trabalho tanto nas fazendas quanto nas empresas, mas isso o consumia muito, o que sempre terminava em mau humor e, às vezes, em alguém demitido.
— Eu realmente espero que você esteja certo — disse ele, enquanto a imagem de uma certa secretária passava por sua mente.