Café Amargo

1013 Words
Rycon saiu da enfermaria resmungando, cada passo ecoando no corredor estreito. A expressão carregada deixava claro que não queria conversa, mas Luciano, como sempre, o seguia em silêncio respeitoso. Seu chefe não estava de bom humor, e tudo o que ele desejava era que Rycon não se estressasse mais — caso contrário, teria que lutar para encontrar outro veterinário que aceitasse trabalhar na fazenda. A fama de Rycon não era boa entre os veterinários. Ele era exigente — e até pegava pesado às vezes —, mas eram poucos os que se arriscavam a trabalhar com ele. — Esses veterinários… — murmurou Rycon, passando a mão no rosto, como se tentasse esfregar junto o peso das últimas horas. — Se ela não me der o que quero, já sabe o que fazer, Luciano. — Sim, patrão — respondeu Luciano, engolindo em seco. Ele apenas ajustou o chapéu na cabeça e seguiu para o jipe, onde Rycon já estava sentado, batucando os dedos no volante com impaciência. O motor rugiu, e o caminho até a sede da fazenda foi feito em silêncio, exceto pelo barulho das pedras sob os pneus e o rangido ocasional da suspensão. Ao entrarem, o aroma de café fresco os recebeu primeiro. Marta estava no mesmo lugar de sempre, perto da janela, com uma xícara fumegante na mão. O olhar dela pousou em Rycon, avaliando-o de cima a baixo. — Sente-se — disse, estendendo-lhe a xícara. — Está precisando. Rycon suspirou fundo, pegou o café e afundou-se em uma das poltronas da sala, resmungando: — Café não vai resolver nada, Marta. — Ficar de cara fechada e com o estômago vazio também não — retrucou ela, já seguindo para a cozinha. — Vou preparar um lanche. Pense melhor enquanto isso. Luciano, encostado na porta, precisou morder o lábio para não rir. Naquela fazenda, só havia uma pessoa que se atrevia a falar com o patrão daquele jeito — e era a mulher que tinha sido babá dele na juventude, sua esposa destemida. — Está ficando petulante — resmungou Rycon, olhando para a porta da cozinha. — Não, patrão… ela só se preocupa com o senhor — respondeu Luciano, com um leve sorriso. — E por isso fala com o senhor desse jeito. Rycon bebeu um gole do café, sem dizer nada, os olhos fixos no chão. O silêncio se alongou até que ele o quebrou: — Sobre os touros… Não acredito que seja doença. Então deve ter sido o remédio para carrapatos mesmo. Só espero que aquela mulher consiga encontrar logo o motivo. — Pode ser que seja realmente o remédio — sugeriu Luciano, puxando uma cadeira e se sentando. — Alguma falha na nova fórmula. Ao menos, se for isso, eles serão obrigados a indenizar a fazenda pelas perdas. — E se não for o remédio? — Rycon levantou o olhar, a expressão endurecendo. — Teremos um problema bem maior ao investigar isso. Luciano cruzou os braços. — Não acho que chegará a tanto. Se fosse outra coisa, já teríamos outros animais morrendo. Os únicos que foram afetados foram os touros. — Você está certo sobre isso — disse ele, frustrado, passando a mão pelos cabelos. — Só espero que ela se apresse com esses exames. Marta voltou com uma bandeja de pães e queijo, interrompendo a tensão por um instante. Colocou-a sobre a mesa, como se não tivesse ouvido nada. — Coma. Pensar de barriga vazia só dá ideia torta. Rycon pegou um pedaço de pão, mas não relaxou. — Vamos fazer uma coisa, Luciano… — disse, olhando fixamente para ele. — Quero que refaça toda a ronda. Revise os estoques de ração e verifique os bebedouros, apenas por precaução. Luciano assentiu, já entendendo que a noite seria longa. — Pode deixar. Do lado, Marta apenas balançou a cabeça. — Vocês dois são teimosos como mulas… mas ainda bem que são bons no que fazem. — Olha quem fala de teimosia — disse Rycon com um sorriso de canto. — Sou teimosa mesmo. Ou acham que eu aguentaria vocês dois se não fosse? — perguntou ela, com a mão na cintura. Rycon e Luciano se entreolharam e começaram a rir das palavras de Marta. — Acho que está certa — disse Rycon. — Estou mesmo. E, fora eu, apenas a senhora vocês ouvem por aqui. — Não se preocupe, em breve ela estará de volta — respondeu Rycon, pensando na briga que o pai estava causando com a sua mãe. — Pelo que vejo, teremos problemas quando a senhora Mira voltar — disse Marta, rindo. — Infelizmente, meu pai nunca sabe quando desistir — comentou ele. — Ele é um homem esperto, sabe como lidar com a senhora Mira — respondeu Marta, rindo. Ela já tinha assistido a várias brigas de seus patrões, e sempre terminava da mesma forma: com César fazendo as pazes com Mira. — O patrão ama muito a senhora, é por isso — disse Luciano, rindo. — E você, velho? Me ama? — perguntou ela, com a mão na cintura. — Mas é claro, minha velha. Você é a tampa da minha panela — respondeu ele. — Acho bom mesmo, ou vai ter problemas — disse ela, virando as costas e saindo. — Você tem problemas — disse Rycon, com um olhar sugestivo para Luciano. — Tenho, mas sei como domar aquela fera — respondeu ele, fazendo Rycon rir. — Apenas vocês para me distrair de tantas coisas ruins, Luciano… — Às vezes, tudo o que Rycon queria era se enfiar na fazenda e esquecer a vida na cidade, mas sabia que isso não estava ao seu alcance. — Tudo vai se ajeitar, patrão. As coisas às vezes são bem mais fáceis do que o senhor pensa — disse Luciano. Ele sabia que Rycon fazia um bom trabalho tanto nas fazendas quanto nas empresas, mas isso o consumia muito, o que sempre terminava em mau humor e, às vezes, em alguém demitido. — Eu realmente espero que você esteja certo — disse ele, enquanto a imagem de uma certa secretária passava por sua mente.
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