A manhã seguia tranquila, e Cara caminhava distraída, deixando-se embalar pelo ritmo dos seus próprios passos. O ar ainda guardava o frescor da madrugada, mas de repente algo mudou. Uma sensação estranha rastejou-lhe pela pele, como se olhos invisíveis se fixassem nela. O coração acelerou antes mesmo de compreender o motivo, e os pés, por instinto, começaram a apressar-se pela calçada.
A respiração começou a falhar. Primeiro rápida, depois curta, como se o ar estivesse preso em algum ponto da garganta. O peito subia e descia em espasmos, sem conseguir acompanhar o ritmo frenético do coração que batia tão forte que ela sentia pulsar nos ouvidos.
Cara tentou fixar o olhar na estrada à sua frente, agarrar-se a qualquer vestígio de normalidade. A sua mão, quase sozinha, procurou o dispositivo que a polícia lhe dera. Mas não estava ali. O bolso parecia vazio, frio. Então a memória veio como um soco: havia trocado de bolsa naquela manhã para ir até à fazenda. O dispositivo tinha ficado para trás.
Cara se repreendia por seu descuido e naquele momento o pânico a deixava desesperada, a sua mente não se fixava em nada específico e ela não via uma solução para a sensação que a tomava.
Um calor repentino subiu-lhe pelo pescoço, mas logo foi substituído por um frio gelado que lhe percorreu os braços. As mãos tremiam. As pernas tornaram-se pesadas e, ao mesmo tempo, instáveis, como se a qualquer momento fossem ceder sob o próprio peso.
A boca secava, e cada tentativa de engolir parecia apertar ainda mais o nó na garganta. A visão começou a perder clareza: manchas negras dançavam nas laterais, estreitando o mundo ao seu redor.
O medo transformou-se em desespero. Virou-se, os olhos varrendo as sombras, mas não havia nada. Nada. Ainda assim, a sensação de ser observada persistia, quase sufocante, como uma presença que lhe roçava a pele sem se revelar.
O mundo começou a turvar-se. As bordas da sua visão escureciam, como se o corpo cedesse à força daquele ataque de pânico. O som ao redor parecia distante, abafado, e cada batida do coração martelava-lhe nos ouvidos.
O pânico tornou-se absoluto. O peito arfava, a cabeça latejava, e o corpo inteiro gritava por fuga. Deu um passo em falso, cambaleou — e então colidiu contra alguém.
Um par de braços fortes a segurou. O toque inesperado fez o grito escapar-lhe da garganta, alto, agudo, como se fosse despedaçar o silêncio da manhã. Ela recuou, olhos arregalados, o coração prestes a explodir.
Mas, quando finalmente ergueu o olhar, encontrou os olhos de Luka. A expressão dele era de alarme e cuidado, firme e presente.
Naquele instante, como se o mundo tivesse aberto uma fresta, o ar voltou a entrar em seus pulmões. O peso no peito aliviou-se apenas o suficiente para que Cara sentisse as pernas ainda tremerem, mas não desabarem. A visão clareava, o coração, embora acelerado, parecia reconhecer um porto seguro.
O desespero cedia, dando lugar ao alívio de não estar sozinha.
— Cara... — a voz dele chegou firme, mas baixa, quase um sussurro que parecia atravessar o turbilhão dentro dela.
Ela ainda arfava, o corpo rígido, os olhos incapazes de se fixar em nada. Luka aproximou-se um pouco mais, mantendo as mãos erguidas, sem movimentos bruscos, como se tivesse medo de quebrá-la ainda mais.
— Olha para mim. — Ele inclinou-se, trazendo o rosto para o campo de visão dela. — Respira comigo. Devagar. Só comigo.
O coração dela ainda corria descontrolado, mas, ao encontrar o olhar dele, algo a puxou de volta. Luka inspirou fundo, exagerando o gesto, como se desse a ela um exemplo físico. Expirou lentamente, aguardando.
— Isso... tenta. — A voz dele era um fio de calma.
Cara tentou imitá-lo. O primeiro suspiro saiu entrecortado, trêmulo. Luka não desviou os olhos. Repetiu o gesto, com paciência.
Mais uma vez.
Aos poucos, o ar parecia entrar com menos resistência. Ainda havia tremores nas mãos dela, mas o peito já não parecia tão apertado. Luka, percebendo a mudança, aproximou-se o suficiente para apoiar uma mão firme no ombro dela.
— Está tudo bem. Eu estou aqui. — As palavras vieram num tom baixo, mas carregadas de certeza, como se não deixassem espaço para dúvidas.
Cara fechou os olhos por um instante, deixando-se ancorar pela presença dele. O som da voz de Luka, o calor da mão no seu ombro, o ritmo compassado da respiração... tudo conspirava contra o caos que a consumira minutos antes.
Quando finalmente abriu os olhos de novo, o mundo já não girava tanto. A sensação de ser observada ainda latejava no fundo da mente, mas, naquele momento, Luka era a única coisa real.
— Cara... — Luka ainda a olhava de perto, os olhos fixos nos dela. — O que aconteceu? Estava tão agitada... parecia que estava fugindo de alguma coisa.
Ela baixou o olhar, tentando disfarçar o tremor que ainda lhe percorria os dedos. Um nó de vergonha misturado ao medo apertava-lhe o estômago. Forçou um sorriso breve, tenso.
— Não foi nada — murmurou, abanando a cabeça. — Eu estava distraída... e me assustei quando esbarrei em você, só isso.
Luka arqueou ligeiramente a sobrancelha, estudando cada traço do rosto dela. Havia suor na testa, a respiração ainda irregular, e o olhar inquieto, como se lutasse contra algo que não queria nomear. Ele sabia que não era apenas distração. Mas não insistiu.
— Está bem — disse por fim, a voz baixa, carregada de uma compreensão silenciosa. — Não precisa explicar agora.
Ele endireitou a postura, ajeitou-lhe a alça da bolsa que escorregava do ombro e acrescentou:
— Deixa-me te acompanhar até à empresa. Assim fico mais tranquilo... e você também.
Cara hesitou por um instante. O impulso inicial foi recusar, mas o simples pensamento de caminhar sozinha novamente fez o frio voltar à sua pele. Acabou por acenar com a cabeça concordando.
— Está bem... eu agradeço.
O peso dentro dela pareceu ceder, pouco a pouco, ao saber que Luka caminharia ao seu lado. Os passos voltaram a encontrar ritmo, ainda vacilantes, mas agora acompanhados pela presença firme dele, que se mantinha atento, quase protetor.
A cada esquina, a cada sombra, Cara ainda sentia um arrepio percorrer-lhe a espinha... mas ao virar o rosto e encontrar Luka ao seu lado, o medo já não parecia tão esmagador.