Ele pediu desculpas?

1059 Words
Cara entrou no escritório pisando duro, o salto dos sapatos ecoando pelo chão polido como um tambor de guerra. Seguiu em linha reta até sua mesa, sem se preocupar em disfarçar o semblante carregado. Ela estava furiosa, mais do que furiosa, na verdade. Tudo o que queria naquele momento era torcer o pescoço de Rycon com as próprias mãos pelas p*****************s que ele tinha dito. Ivy ergueu os olhos do monitor e inclinou-se para a frente. Ela podia ver Cara com o rosto levemente corado, o que não era característico dela. Então, levantou-se e foi até a colega. — O que foi agora? — perguntou num tom meio divertido. — Você está com uma cara péssima. Cara largou a pasta sobre a mesa, suspirou fundo e respondeu com raiva, lembrando-se do que tinha ocorrido. — Nada demais. Só mais um embate com o Rycon. Ivy deixou escapar uma risada leve. Aquilo era algo corriqueiro para ela, que já tinha aturado muito do mau humor do chefe. — Já devia estar acostumada com o jeito dele. O nosso querido CEO fala sempre como se o mundo estivesse desabando. Não leve para o lado pessoal, é só o jeito grosseiro dele. Cara arqueou uma sobrancelha, ainda tensa, mas não disse nada. Duvidava que a pirraça de Rycon com ela fosse apenas aquilo. Nesse momento, a porta do escritório se abriu de repente. Rycon surgiu, a voz firme preenchendo o espaço. — Ivy! — chamou, sem rodeios. Ao vê-la junto de Cara, o olhar dele endureceu. — Te pago para trabalhar, não para perder tempo em conversas inúteis. O riso de Ivy congelou no ar, mas ainda assim ela lançou um olhar sugestivo a Cara — uma mistura de cumplicidade e provocação. Em seguida, levantou-se apressada e foi até ele. — Desculpe, senhor Rycon — disse, correndo de volta para sua mesa, enquanto o rubor lhe subia ao rosto. Cara permaneceu no lugar, observando o pequeno teatro, sem conseguir evitar um leve sorriso irônico. Rycon com toda certeza tinha um problema com ela, mas infelizmente ela não sabia qual era. — Cara, que bom que está aqui. Você vem comigo para uma reunião — disse César, abrindo a porta do seu escritório. — Você também, Rycon. Ele não esperou por uma resposta, apenas entrou novamente em sua sala. Cara ignorou o olhar hostil de Rycon e entrou. Rapidamente separou os documentos que usariam e seguiu César em direção à sala de reuniões. Assim que chegou à sala de reuniões, os outros já estavam lá. Cara sentou-se ao lado de César e pegou o seu bloco de notas, pronta para anotar qualquer coisa que o chefe precisasse. — ... o que está sugerindo é um novo investimento na área genética, é isso? — perguntou um dos acionistas da empresa. — Sim, temos tido bons resultados nessa área e acho que está na hora de melhorar os nossos laboratórios. O que estou sugerindo é a construção de uma área nova e mais moderna, com espaço para o nosso pessoal trabalhar — respondeu César, trocando a imagem do projetor por uma planta baixa. — A ideia é boa, mas no momento acho um desperdício de recursos da empresa gastar um valor tão alto em uma nova instalação. Já temos uma boa, que eles usam no momento — disse o homem. — Desperdício de dinheiro é o que você faz todas as noites na boate da cidade. Isso aqui é investimento — respondeu Rycon, os olhos sombrios fixos no homem. A sala caiu em um silêncio absurdo. Todos olhavam para Rycon sem acreditar no que tinham ouvido, mas ele mantinha uma expressão tranquila, como se não tivesse dito nada demais. — Você não pode dizer isso! Está me caluniando na frente de todos! — acusou o acionista, vermelho de raiva. — O garoto que você encontra lá não pensa assim — disse ele, mexendo no celular. Segundos depois, uma imagem apareceu na tela, chocando a todos. O homem caiu em sua cadeira, horrorizado com o que via. Não acreditava que Rycon o tivesse exposto daquela forma sem nenhum motivo. — Qual é o seu problema? Estava apenas dando a minha opinião! — esbravejou ele, furioso. — O meu problema é ter que lidar com um ninguém como você! Hoje não estou de bom humor e, se não deseja que sua esposa receba essa foto, sugiro que se sente no seu lugar e cale a boca! O homem se sentou novamente, furioso, o rosto mais vermelho que um pimentão, enquanto seus olhos fuzilavam Rycon. Rycon suspirou aliviado, retirou a imagem da tela e colocou um vídeo curto da nova instalação. — Temos alguns pedidos de clientes renomados para adquirir nossos animais. Alguns desses clientes pagaram adiantado por uma leva de embriões, por isso o novo centro de pesquisa não usará fundos da empresa. Ele será um centro independente. O que meu pai queria dizer a vocês é que, caso aceitassem investir nessa área, ganhariam parte do lucro das vendas. Mas já percebemos que isso não é do interesse de vocês. — Não é bem isso, senhor... — Me poupe do discurso. Apenas se retirem para que possamos terminar aqui — disse Rycon, passando a mão na cabeça. Um a um, os acionistas deixaram o local, ficando apenas Rycon, César e Luka. — Eu já tinha te oferecido um bom dinheiro por essa parceria, mas estou disposto a investir mais se for necessário — disse Luka de forma tranquila. — Gosto disso em você, Luka. Nunca perde uma boa oportunidade — disse Rycon, um pouco mais calmo. — Podemos trabalhar em sociedade se você quiser. Tenho algumas ideias que podem te agradar bastante — disse Luka. Olhando para o homem à sua frente, Rycon reconhecia que ele era um grande empresário e, acima de tudo, que tinha errado pelo comportamento mais cedo. — Me desculpe — disse ele, olhando fixamente para Luka. Luka se surpreendeu com o pedido de desculpas, mas quando lembrou do incidente no elevador, sorriu. — Acho que não ouvi direito — disse com um sorriso de canto. — Não vai ouvir essas palavras da minha boca novamente — respondeu ele, voltando a falar de negócios. Cara ouvia aquela conversa esquisita, pensando se seus ouvidos lhe tinham pregado uma peça. Mas não — o impossível tinha acontecido: seu chefe havia pedido desculpas a alguém.
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