A tensão ficou tão densa que dava pra cortar com a faca da cozinha da Camila.
Lucas ficou branco, Camila estava parada na porta do corredor sem saber se ralhava com o marido ou agradecia o irmão, e Alex... Alex parecia um pitbull treinado pra matar que alguém segurava só pela coleira.
Os músculos do maxilar dele pulavam. O peito subia e descia devagar. O olhar... aquele olhar preto, silencioso, atravessava Lucas como se calculasse quantos segundos levaria pra derrubar o cara no chão.
E eu senti uma coisa estranha: nem medo e nem vergonha, só desconforto.
Sabe quando o clima tá tão r**m que você só quer sumir no ar, virar fumaça e reaparecer na sua cama comendo pão doce? Exatamente isso.
Eu puxei o ar, passei a mão no braço do Alex e disse baixinho:
— Alex... eu quero ir embora.
Ele virou o rosto pra mim. Na hora.
O olhar dele suavizou um pouco, mas só pra mim.
Pros outros ainda era pura ameaça.
— Agora? — perguntou, a voz ainda grave.
— Uhum. — fiz que sim com a cabeça. — Já deu por hoje. Tá tudo meio... sei lá.
Ele continuou me olhando por um segundo que pareceu longo demais. Segundos em que Camila piscava pra mim com aquela cara de "desculpa, meu marido é um i****a", e Lucas tentava desaparecer pela parede.
Alex finalmente soltou um suspiro curto, como quem segura o corpo no lugar pra não fazer merda.
— Beleza. Vamos. — disse, firme.
Ele passou pela sala, pegou Ítalo no colo, o que fez o menino largar a espada de brinquedo e abraçar o pescoço dele com naturalidade total e voltou pra mim.
— Dá tchau pra tia. — ele disse pro meu filho.
Ítalo acenou, sorrindo, todo feliz, sem nem imaginar a guerra fria que tinha rolado ali. Camila veio até mim e segurou minhas duas mãos, apertando forte.
— Me desculpa, tá? — ela disse baixinho. — O Lucas... às vezes fala e só depois pensa. Mas você é sempre bem-vinda aqui, Manu. Sempre.
Eu sorri, sincera.
— Eu sei, Cami. Tá tudo bem.
Não tava. Mas também não era culpa dela.
Quando saímos, Alex continuava rígido. Caminhando rápido, sem olhar pros lados. O portão fechou, e ele finalmente soltou o ar que tava segurando desde o confronto lá na sala.
— Se ele falar mais alguma coisa pra você... — ele começou, a voz baixa, perigosa.
Eu interrompi antes que ele continuasse ameaçando homicídios:
— Alex. — falei suave, um pouco cansada. — Eu só quero ir pra casa.
Ele me olhou por um momento longo, estudando meu rosto, talvez procurando se eu tava triste, brava, magoada... Mas eu não tava nada disso. Só... saturada daquele clima pesado.
Depois, ele assentiu devagar.
— Tá. Vamos pra casa.
Não teve drama, briga, nem choro. Só nós três, indo embora daquele lugar como se deixássemos uma tempestade fechada lá dentro.
No caminho de volta, achei que ele ia dirigir direto pro apartamento. Mas Alex pegou uma saída que eu não conhecia, cruzou a ponte e entrou na Barra como quem já tinha decidido o destino sem me perguntar nada.
A SUV deslizou pelas ruas limpas, prédios espelhados refletindo o céu azul, gente de roupa cara andando como se o sol fosse feito pra elas.
Eu olhei pela janela, desconfiada.
— A gente tá indo pra onde? — perguntei, já sabendo que vinha besteira.
— Comer. — respondeu sem olhar pra mim, a voz firme. — Tu não almoçou. Nem eu. O moleque também não.
— Alex, eu posso cozinhar em casa…
— Ninguém vai cozinhar p***a nenhuma. — ele cortou, abrindo o sorriso curto e convencido. — Hoje eu te levo pra comer direito.
Eu bufei, mas por dentro, meu estômago roncou alto o suficiente pra me entregar. Ótimo. Perfeito. Nem o meu corpo colabora comigo.
Ele estacionou na frente de um restaurante que parecia cenário de novela: fachada espelhada, porta giratória, manobrista de terno.
Chique.
Muito chique.
Tipo "três meses do meu salário por prato".
Olhei a fachada e depois olhei pra ele.
— Alex... tu tá de s*******m.
— O quê? — ele fingiu inocência.
— Eu não vou entrar nisso aí.
— Vai sim.
Eu abri a boca pra retrucar, mas ele já tinha soltado o cinto e ido até a porta traseira pegar Ítalo, que ficou encantado com o tamanho do prédio, das plantas, das luzes, de tudo.
Quando fui sair, Alex já estava do meu lado, segurando a porta pra mim.
— Anda, Souza. Deixa de frescura.
— Tu sabe que esse tipo de lugar... — engoli seco. — Alex, eu vou parecer deslocada.
Ele se virou totalmente pra mim e olhou direto nos meus olhos, sem arrogância, sem riso, sem pose.
— Manuela. — a voz veio grave, mas calma. — Onde tu pisa comigo, tu nunca fica deslocada. Nunca.
Meu coração deu aquele tropeço i****a que eu odeio.
Desviei o olhar.
— Você fala bonito, né?
— Eu faço mais bonito ainda. — Ele piscou. — Anda logo antes que eu te carregue.
— Alex!
— Não duvida.
Suspirei, impotente, e segui ele até a entrada. O manobrista abriu a porta, e por um segundo eu quis voltar correndo pro carro, mas Ítalo entrou todo empolgado, então fui atrás.
O restaurante era lindo. Luz natural, mesas com toalhas de linho, cheiro de comida boa e cara, garçom com sorriso treinado.
Instantaneamente, meu corpo ficou rígido. Era aquele tipo de lugar que eu só via em novela. E agora eu estava ali, com vestido simples, sandália simples, cabelo preso de qualquer jeito e um capitão do BOPE do meu lado que parecia ter nascido naquele tipo de ambiente.
Alex, claro, não ligava pra nada. Caminhou até a mesa como se fosse dono do restaurante. O garçom praticamente se curvou pra ele.
Sentamos e Ítalo ganhou um caderninho de colorir.
Eu ainda estava processando tudo quando Alex falou, folheando o cardápio:
— Escolhe aí, Souza.
— Eu nem sei o que escolher.
— Então eu escolho.
— Alex...
— Tu gosta de carne?
— Gosto.
— Então pronto.
Ele fechou o cardápio, chamou o garçom com aquela confiança irritante, e fez o pedido todo: meu, dele, do Ítalo, como se já soubesse exatamente o que eu ia gostar.
Quando o garçom saiu, eu cruzei os braços.
— Só pra deixar claro: eu não precisava disso. Eu ia cozinhar.
— Eu sei.
— Então por que trouxe a gente pra cá?
Ele se recostou na cadeira, me olhando daquele jeito que fazia minha pele ficar quente.
— Porque você merece comer sem contar moeda. Porque tu não tem que ficar se sentindo deslocada em lugar nenhum.
Ele deu um gole no suco e completou, como se fosse a coisa mais simples do mundo:
— E porque eu quis te ver sentada numa mesa bonita.
Eu engoli seco.
— Te ver confortável.
Outra pausa.
— Te ver bem.
Eu virei o rosto, porque se continuasse olhando pra ele, ia entregar demais. Mas mesmo assim, a verdade martelava no meu peito:
Era perigoso demais o jeito que ele cuidava da gente.
E, ao mesmo tempo, era a primeira vez na vida que alguém se preocupava comigo assim, sem pedir nada em troca.
Ou talvez pedisse. Talvez pedisse tudo.
E era isso que me assustava mais.