11. Buaque

809 Words
A noite já tinha caído sobre o Rio, e a cidade parecia outra: as luzes refletindo no asfalto molhado, o barulho distante das sirenes se misturando ao som abafado de um baile em alguma parte alta do morro. O tipo de calmaria que só existe entre uma operação e outra, quando o caos resolve tirar um descanso. Eu tava encostado na janela da sala da delegacia, camiseta, colete jogado na cadeira. O cigarro queimava entre os dedos, e o gosto amargo da nicotina misturado ao uísque fazia o corpo relaxar do jeito que só o pecado consegue. Lá fora, o vento trazia o cheiro de chuva e gasolina, familiar, quase reconfortante. Caveira entrou, mancando, como sempre. — Tá de bom humor hoje, hein, Buarque? — ele provocou, jogando a mochila num canto. — Bom humor não. Tô pensando. — Cê pensando é perigoso. — Então o mundo devia começar a rezar. — Soltei uma risada baixa. Ele se jogou na cadeira da frente, abrindo uma lata de cerveja com aquele estalo que ecoa mais do que devia. — Tá pensando em quê? — Numa mulher. — Ah, sabia. — Ele riu. — Sempre tem uma mulher. Traguei o cigarro devagar, observando a fumaça subir, formando redemoinhos no ar. — Mas essa é diferente. — Diferente como? — Do tipo que acha que ainda existe esperança. — Cuidado, irmão. Esperança é o que mais mata. — Caveira arqueou uma sobrancelha. — Eu sei. — Sorri de canto. Fiquei em silêncio por um tempo, olhando pra rua pela janela. O rosto dela voltou à mente, aquele olhar assustado, a voz trêmula, a sacola rasgada no chão. Não era beleza o que me chamava atenção. Era a fraqueza. A vulnerabilidade. O jeito que ela parecia pequena demais pro mundo que a engolia. E, talvez, o que me incomodasse era justamente isso. A lembrança de algo puro num ambiente que já não tinha espaço pra pureza. — Tu tá com cara de quem vai fazer besteira. — Caveira falou, me tirando do transe. — Besteira é um conceito relativo. — Cê sabe o que eu quis dizer. — Eu sei. — Joguei o cigarro no cinzeiro, me inclinando pra frente. — Mas relaxa. Eu não me envolvo com mulher que chora por comida. — Já é um começo. Fiquei quieto por um instante. Peguei o copo de uísque e dei um gole lento, deixando o álcool queimar na garganta. — Mas é engraçado, sabia? — O quê? — Tem algo de provocante em ver alguém lutando pra sobreviver num mundo que não dá nada de graça. — Olhei pra ele com um sorriso torto. — É quase erótico, no pior sentido possível. — Tu é doente, irmão. — Caveira soltou uma gargalhada curta. — Sou realista. — Realista, não. Doente. — Ele bebeu mais um gole. — Cê fala de miséria como quem fala de luxo. — Porque é isso que é. — Cruzei as pernas, relaxando o corpo na cadeira. — Luxo. Pra eles, viver é luxo. Comer é luxo. E pra mim, observar é o único vício que ainda me dá prazer. O silêncio pairou por um instante. A chuva começou a cair lá fora, batendo no vidro. A cidade ficava mais bonita quando molhada. Suja, mas viva. Caveira me olhou por cima da lata, curioso. — Então me diz, Buarque... essa mulher aí, ela tem nome? — Tem. — Passei o polegar pelo lábio, pensativo. — Manuela. — A menina da casa da tua irmã? — A própria. — Tu não presta. — Ele balançou a cabeça, rindo com ironia. — Ninguém no BOPE presta, parceiro. A diferença é que eu admito. Fiquei quieto depois disso, mas o pensamento não saiu da cabeça. O jeito que ela desviou o olhar pra não chorar. A voz dela trêmula, pedindo desculpa por existir. Era errado, e talvez por isso mesmo fosse interessante. Mulher assim desperta o tipo de curiosidade que não se controla. Ela tinha medo, e medo é a coisa mais perigosa do mundo, porque entrega o poder todo pra quem sabe usar. Apaguei a luz da sala e me levantei, pegando o colete e o cigarro. — Bora, Caveira. — Pra onde? — Fazer ronda. — De noite? Tá chovendo. — O crime não dorme, irmão. — Dei um sorriso enviesado. — E eu também não. Enquanto descia as escadas, o som da chuva batendo nas janelas se misturava ao eco dos meus passos. O cheiro da rua molhada me atingiu de cheio, e junto veio aquela sensação estranha: uma mistura de domínio e desejo. Porque, no fundo, eu sabia: eu ia ver ela de novo. Não por acaso. Mas porque, às vezes, o destino tem o humor maldito de cruzar o caminho da presa com o do caçador e eu nunca fui de recusar o que o destino oferece.
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