O calor daquela noite grudava na pele, e o vento que subia do asfalto trazia o cheiro de comida frita e fumaça de escapamento. O morro vivia. barulho de gente rindo, moto passando, criança chorando em algum barraco mais acima. Era o tipo de noite em que tudo parecia normal, mas a qualquer momento o silêncio podia mudar de lado.
Eu vinha voltando da creche com Ítalo no colo, o corpo dele mole de sono, a cabeça encostada no meu ombro. A sacola balançava na outra mão, um pacote de macarrão, um sabonete, um litro de leite.
Coisa pouca, mas suficiente pra alimentar a esperança de mais um dia. O chão da viela ainda molhado refletia as luzes dos postes, e o barulho distante de um motor fez meu estômago apertar sem motivo.
Quando dobrei a esquina, o som ficou mais próximo. O ronco grave de um motor grande, pesado, diferente do das motos que subiam o morro. Um carro preto, janelas escuras, parou devagar na frente da venda. Dois policiais desceram, fardados, colete, fuzil no ombro. O coração gelou, e por instinto apertei o Ítalo contra o peito.
O terceiro saiu por último. Passos firmes, o corpo largo ocupando o espaço inteiro da rua. Mesmo antes de ver o rosto, eu já sabia quem era. Aquele andar não se confunde. O mesmo porte, o mesmo olhar gelado que ficou gravado na minha cabeça desde o dia em que rasgaram minha compra no chão.
O capitão.
Ele olhou ao redor, como quem avalia o território. E quando o olhar dele me encontrou, eu soube que ele lembrava. O corpo reagiu antes da mente, o coração disparou, o sangue subiu pro rosto, e as pernas quiseram correr. Mas correr pra onde? No morro, a gente não foge da farda. Só espera ela passar.
Ele deu uns passos na minha direção, devagar, como quem se diverte com o incômodo que causa. Eu fiquei parada, respirando fundo pra não demonstrar o medo, tentando manter o Ítalo dormindo no colo.
— Ainda mora aqui? — ele perguntou, a voz baixa, rouca, carregada de ironia.
— Onde mais eu moraria? — respondi, sem olhar direto pra ele.
— No asfalto, talvez.
— O asfalto não tem espaço pra quem vem daqui, o senhor devia saber disso. — Dei um riso curto, sem humor.
Ele chegou mais perto. O fuzil no ombro, o colete ajustado, o cheiro de pólvora e perfume forte misturados no ar. Era impossível ignorar a presença dele. O tipo de homem que não precisa gritar pra ser notado.
— Curioso. — emurmurou, com um meio sorriso. — Uma semana atrás, você tremia só de me olhar. Agora responde como se me conhecesse.
— Porque eu conheço. — Minha voz saiu firme, mas o peito doía. — Sei o que o senhor é. E o que o senhor faz.
Ele inclinou a cabeça, avaliando cada palavra. O olhar dele desceu pro menino no meu colo, depois subiu de novo pra mim.
— E o que eu sou, Manuela?
— Um homem que acha que pode pisar em quem não tem nada.
O sorriso que ele deu foi curto, quase um deboche.
— E o que te faz pensar que eu me importo com o que você tem?
— Nada. — disse, apertando o Ítalo mais forte. — É por isso que eu não te devo nada também.
O silêncio entre nós pesou. Ele me olhava como quem disseca, sem pressa, e por um instante o mundo pareceu parado, só o som distante do baile e o vento batendo no toldo da venda.
Por fim, ele deu um passo pra trás, o olhar ainda cravado em mim.
— Cuidado com o que fala. Nem todo mundo é tão... compreensivo quanto eu.
— Não pedi compreensão, senhor. Pedi respeito.
— Respeito é moeda rara nesse morro, Manuela. Aprende isso cedo, se quiser continuar viva. — A risada dele veio baixa, arrastada, maliciosa.
Ele virou as costas, e o som das botas ecoou pelo beco. O carro preto seguiu logo depois, sumindo na curva, deixando o cheiro de gasolina no ar.
Fiquei parada, o corpo tremendo, o coração batendo descompassado. O Ítalo se mexeu no colo, resmungando, e eu afaguei os cachos dele com a mão trêmula.
— Tá tudo bem, meu amor — sussurrei, mentindo pra ele e pra mim. — Já passou.
Mas não tinha passado.
Nada tinha.
Porque o som da voz dele ainda ecoava na cabeça, junto com a lembrança do olhar frio e do jeito malicioso com que falava meu nome.
E, mesmo depois de ele ter ido embora, a sensação era a mesma de antes, como se ele ainda estivesse ali, em algum canto da viela, observando.
Esperando o próximo encontro.
Subi o beco com as pernas trêmulas, o Ítalo ainda dormindo no colo e o som do motor dele ecoando na cabeça. Cada passo parecia mais pesado, e o ar quente grudava no rosto. Quando cheguei em casa, encostei a porta e respirei fundo, tentando afastar aquela sensação: o medo, a raiva, o desconforto.
Coloquei o Ítalo na cama, tirei as sandálias e sentei no chão. O silêncio do barraco era cortante, e a imagem dele não saía da minha mente: o olhar frio, o sorriso de canto, a voz carregada de deboche.
Peguei a sacola e comecei a guardar o pouco que comprei. O leite, o macarrão, o sabonete. As mãos ainda tremiam, mas eu me obrigava a continuar. Não podia me dar ao luxo de desabar.
Olhei pro meu filho, dormindo tranquilo, e sussurrei baixinho:
— A gente vai sair daqui, meu amor. Juro que vai.
Lá fora, o barulho da cidade voltou. Motos, vozes, música. Mas, por dentro, ainda era o som da voz dele que ecoava, e o peso do olhar de quem, por algum motivo, parecia não ter acabado comigo ainda.