Um chofer

2210 Words
Mesmo que as minhas pernas relutem a caminhar, me esforço para ir até o quarto. Algo dentro do meu estômago está se remexendo muito, contraindo e doendo. Todo o meu corpo entra em estado de alerta. Abro o guarda roupa e pego a máscara atrás dos casacos, não precisava de uma mensagem para saber que eu teria de usá-la.  Meu celular começa a vibrar e eu fecho os olhos com força, céus, eu só queria sumir. Olho de canto de olho, e vejo que é a minha mãe, o ar trava na minha garganta.   Antes de atender a chamada eu respiro fundo. Talvez a voz dela faça com que eu desabe em um choro forte, ou implore para que ela me busque. A ideia de que ela chegue a cidade me dá uma sensação r**m, como se aqui fosse um labirinto sem saída, sinto-me presa e sufocada em uma cidade fantasma. Ouço claramente Felipe avisando sobre as paredes ter ouvidos, sua voz é fresca na minha memória. Eu não poderia fazer um alarde. Deslizo a tela e vejo seu rosto todo na tela do celular, estava perto demais e eu solto um sorriso. - Olá, mãe - atendo e ela está distraída.  - Oh, oi filha! - Arruma desajeitada o celular - E então, como você está? - Estou bem. Um pouco cansada da semana, mas bem.- Suspiro e sinto meus olhos arderem, eu quero tanto a minha casa.  - Está com cara de cansada mesmo. Está se arrumando? - Sim, tem uma turma que conhecemos, vamos dar um pulinho lá, mas eu volto cedo. - Sinto medo de não voltar, mas guardo esse detalhe pra mim. O que seria dela, se eu não voltasse? - Hum - Dou uma curta risada da sua insatisfação, que ela não se esforça para esconder. - Vão ser só algumas horas.- Adicionei e ela olha para outra coisa. ”- Estou assistindo aquele filme que assistimos no cinema quando você era nova, Sharkboy e Lavagirl, sabe? - Sim, um pouco infantil para a sua idade, não acha?  - Eu sei - Suspira- Mas é que...sinto a sua falta - Assumiu e vejo os seus olhos lacrimejarem. Meu coração cai.  - Mãe.- Sussurro triste. - Não se preocupe comigo! - Se recuperou e abriu um sorriso - Quero que se divirta e estude ai, volte uma médica maravilhosa! Você pode vir algum fim de semana? Ou talvez eu possa... - Eu vou.- Interrompi e ela dividiu a atenção comigo e com a televisão - Estou com saudade de casa. - Ok.-  Falou e encolheu os ombros.- Trás a Kim com você. Temos um quarto de hóspedes O assunto já estava me sufocando, eu queria tanto tudo isso, e pra mim, parecia tão distante. Era como se eu soubesse que algo muito r**m aconteceria comigo a qualquer momento. E como eu poderia envolver uma pessoa que eu amava? Kim já foi o suficiente para que eu entendesse que isso só irá machuca-la - Mãe, preciso ir. Ela está se trocando e daqui a pouco ela surta. Já são 19:30 e marcamos de ir às 20:00. - Tá bom, filha - sua voz foi triste e compreensível ao mesmo tempo - Eu te amo, ok? E se cuide, por favor. - Eu também mãe.- Engasgo um pouco, tão sútil que ela não percebe devido a atenção no filme.  Nos despedimos e eu confiro se chegou outra mensagem, mas era apenas aquela “Rua Gilberto Alvarez n 34 / as 00h” Não faço ideia de como eu iria até esse endereço. Não faço ideia do que fazer a partir desse momento. Vou ao guarda roupa e visto um vestido com decote reto e regata, seu cumprimento era até a metade da coxa, não lembrava de ser tão curto, ou talvez minhas coxas estão maiores. Calço meus vans preto e faço uma maquiagem básica.  - Lucas chegou! - A Kim grita da sala e eu me apresso, passo a mão na minha jaqueta de couro preta e solto o coque do meu cabelo, deixando os castanhos deslizarem até metade das minhas costas. - Aí papai! - Kim elogia quando me vê. - Hoje o Lucas tem um troço. - Para! - Começo a rir, mas a ideia de que eu não vou ficar muito tempo lá, me entristece. Deixo a Kim sair primeiro e recebo um sorriso largo do Lucas assim que entramos no carro.  - Garotas, vocês estão maravilhosas.- Elogia já conduzindo o carro.  Hoje o bar esta sem movimento, como da primeira vez que estivemos aqui. Poucas pessoas, som baixo e todos no lugar de costume. Meu coração fica quentinho quando nos aproximamos do resto do pessoal. - Olha elas aí! - Gabi levanta a long neck quando nos aproximamos. Camila não estava hoje. Pedro vira o pescoço para nós e seus olhos brilham ao ver a Kim. Dou um sorriso discreto e empurro ela levemente com o ombro, sua bochecha cora e eu seguro a risadinha. Lucas passa o braço nas minhas costas e me prende pela cintura, levando meu corpo para mais perto dele. Seu cheiro é bom, mas não como o do Felipe. Céus, por quê eu acabei de comparar os dois!? - Você está linda - Ele sussurra ao meu ouvido e eu amoleço. - Dessa vez já separei pra vocês as bebidas - Pedro indica a mesa, um balde com três long neck mergulhadas no gelo.  Nós nos sentamos nas cadeiras desocupadas, Lucas ao meu lado e a Kim do outro, perto do Pedro. Diego estava cabisbaixo mas não me sentia confortável em perguntar o motivo.  - Foi tudo bem, na delegacia? - Pergunto ao Lucas em uma conversa a dois, enquanto as outras pessoas conversam.  - Ah, sim - Ele da um sorriso jovial - Tranquilo, só precisava informar o horário e teve uma investigação, para provar que meu bar não vendia drogas.  - Que bom! - Ele afirma com a cabeça e continua me olhando. Seus olhos passam pelo meu rosto todo até parar na minha boca. Meu coração acelera e eu tenho que me concentrar para respirar.  - Que p***a! - O Diego grita e nós dois o olhamos rapidamente, sua blusa esta ensopada enquanto ele levantava da mesa, Gabriela estava em pé com um copo vazio na mão. Provavelmente o líquido que estava ali mais cedo, está completamente na camiseta do Diego. - Sabia que você tinha dormido com ela! - Gritou e antes de arremessar o copo, Lucas se levantou rapidamente. Não o suficiente para evitar o copo quebrar em diversos pedacinhos, me assusto com o barulho do choque do vidro no chão. - Espera aí, calma aí, Gabi. Não me ferra, cara. Sem brigas aqui.  - Qual o seu problema, menina? - Diego perguntou tirando a camisa, os músculos se mexem sob a sua pele e eu evito olhar por mais que seja bonito, não quero levar um copo na cara. - Eu já falei que não transei com ela! p***a! - Eu odeio você, Diego - Suas lágrimas começam a escorrer e ela sai da mesa e esbarra, quase derrubando os outros copos.  - Merda, Gabi.-  Ele sussurra visivelmente magoado. - Quem? - Lucas pergunta. - Helena. Mas eu não dormi, cara. Ela cismou! - O que vocês têm, afinal? - Pedro pergunta confuso e o Diego encolhe os ombros, em resposta. - Vai falar com ela, irmão. Não deixa ela sozinha não.- Lucas aconselha e ele sai.  Continuamos com outro assunto na mesa, nós quatro. As mãos do Lucas deslizavam pelo meu braço vez ou outra, sua mão as vezes pousava na minha e por poucas vezes ele beijou o alto da minha cabeça em um gesto fofo. Eu queria tanto que ele me beijasse, que a cada vez que ele se aproximava e não fazia, era torturante.  Meu celular vibra, vejo que são 23:40, passou tão rápido. Deslizo a tela e vejo a mensagem. *Entre no carro* O mesmo número do endereço. Meus lábios secam e me arrependo de ter tomado tantas cervejas, minha vista embaça e por um momento sinto que vou desmaiar. - Rafa, seus lábios...- Kim começa. - Estou um pouco alterada, vou ao banheiro. Eu já volto. - Finjo um sorriso ao me levantar. Agradeço a oferta do Lucas em me acompanhar e vou sozinha, perto da entrada do bar eu olho para conferir se eles estão olhando, e ao ver que não, passo os olhos por toda a rua, procurando algum veículo e vejo um carro preto com os faróis desligados e um sufilm escuro. Como ia saber se era esse carro? Os faróis ligam assim que eu dou alguns passos lentos e medrosos, respondendo a minha pergunta. Tropeço algumas vezes, isso é tão errado... Estico minhas mãos trêmulas até a fechadura e abro a porta do corolla preto. Entro e me sento no banco de couro que está aquecido, devido ao ar de dentro do carro. Cheiro de couro novo é substituído pelo cheiro do meu medo.  O chofer está usando uma máscara veneziana, está com as duas mãos no volante e eu estou sozinha no banco de trás, somos só nós dois.  Não conseguia identificar a sua idade, mas pela suas rugas na mão, não era tão novo. - Podemos seguir, senhorita? - Perguntou cordialmente. - Cla-claro.- Respondo, e algumas lágrimas escapam enquanto ele começa a dirigir , eu limpo rapidamente. Novamente o celular vibra e eu sinto vontade de joga-lo da janela. KIM Onde está? E não minta, vi você virando a rua Kim digitou, sinto uma enorme vontade de pular do carro. - Posso saber para onde estou indo? - Pergunto ao chofer. - Irá saber quando chegar, senhorita. Seguro o celular e m*l consigo digitar pelas mãos trêmulas. Me pergunto se a Emily fez esse mesmo percurso. RAFAELA: Não queria envolver você nisso. KIM Onde está? RAFAELA Em um carro. Tem um cheiro diferente KIM De cadáver?? :o RAFAELA Jura que você disse isso? Suspiro ao responder a mensagem, e observo pela janela, mas não dá para ver nada, estamos completamente no escuro, exceto pela luz do farol iluminando a rua e meu celular dentro do carro. - Senhorita, desligue o celular, entregue pra mim e coloque a máscara, por gentileza.- O chofer pede gentilmente.  As lágrimas escorrem pelo meu rosto enquanto desligo o celular com a ligação da Kim. Inclino meu corpo para entregar o celular e ele pega sem contato visual, sua atenção estava inteiramente na estrada.  Coloco a minha máscara e ele para o carro na frente de uma guarita, que só dava para ver a pequena lâmpada velha iluminando dentro. Que breu! Eles trocam algum código verbal e o farol liga novamente, iluminando um enorme portão preto rústico de aproximadamente vinte metros, ele se abre dividindo o desenho de uma rosa. Eu cheguei. O carro anda mais alguns km em uma estrada estreita de terra contornada por enormes árvores, depois de alguns minutos chegamos a porta de uma imensa mansão inteiramente preta com as janelas lacradas e sem barulho algum. Diria que era abandonada se não fosse pela intrigante arquitetura conservada. Deveria ter no mínimo três andares, com sacadas que eu conseguia ver somente por sombra, era escuro demais. Sinto o carro descer um pouco e estamos entrando em uma garagem no subsolo.  Não há luz, e antes de desligar o farol percebo que os carros que tem ali estão capas pretas os cobrindo. Do lado de fora, duas lanternas são acesas, uma na porta do chofer e outra na minha, eu dou um pulo para o lado e meus olhos ardem em desespero. A porta abre, e uma mão com luvas pretas é estendida para mim. Me recuso a colocar a mão acima e vejo o chofer saindo com a outra pessoa de lanterna. - Senhorita Ferraz, por favor, não precisa ter medo.  Por que diabos todos eram tão simpáticos?  Encaro a mão novamente e a manga do paletó. Coloco a minha mão e sinto o quente do couro da luva. Com delicadeza ele me ajuda a descer do carro e a única coisa que consigo enxergar é a luz no chão que caminhamos. Se não fosse por estar em um lugar totalmente desconhecido, me sentiria a própria princesa da Inglaterra com tamanha educação. Seguro sua mão um pouco mais forte e ele faz o mesmo, como se estivesse me dando forças.  - A primeira vez sempre é assustadora, você vai se acostumar - Ouço sua voz perto do meu ouvido e mordo a boca para evitar o choro estrondoso que eu estava segurando.  Primeira vez? Você vai se acostumar? Então eu não seria morta hoje? Teria que voltar mais vezes? Afinal, onde eu estava? A porta de um elevador é aberta e eu forço os meus olhos devido a claridade, entramos e o só assim consigo enxergar a pessoa da lanterna. Ele é alto, terno muito bem passado e a barba estava feita, usava uma máscara branca que cobria metade de um lado do seu rosto, ele evitava o contato visual olhando somente para a porta.  - Cadê o chofer? - Pergunto amedrontada. - Não se preocupe. Antes que eu pudesse me preocupar, a porta é aberta e o que eu vejo é extraordinário.
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