Capítulo 14

620 Words
Na manhã seguinte, o clima na casa de Dalila era o de sempre: organizado, silencioso… e controlado. Ela estava tomando café quando a mãe entrou com um olhar sério. — Hoje é o aniversário daquela sua amiga… como é mesmo o nome? — Verônica — respondeu Dalila, tentando parecer natural. O pai abaixou o jornal lentamente. — Aquela menina… — disse ele, com um leve tom de desaprovação. — A família dela não é do nosso círculo. Dalila já esperava aquilo. — A gente cresceu juntas — respondeu, calma. — É importante pra mim. A mãe trocou um olhar com o pai. — Você sabe que precisa ter cuidado com os lugares que frequenta — disse ela. — Nossa imagem… Dalila interrompeu, pela primeira vez com um pouco mais de firmeza: — Eu só vou num aniversário. O silêncio pesou por alguns segundos. No fim, o pai suspirou. — Tudo bem. Mas nada de exageros. E queremos você de volta cedo. Dalila assentiu. Por fora, obediente. Por dentro… já decidida a aproveitar cada segundo. Horas depois, Dalila chegou na casa de Verônica. Era simples, mas cheia de vida. Música tocando, gente conversando alto, risadas espalhadas pelo ambiente. Assim que entrou, Verônica veio correndo abraçar ela. — Eu não acredito que você veio! Dalila riu, abraçando de volta. — Eu também não. As duas se afastaram, se olhando. — Você tá linda — disse Verônica, sincera. — Você também — respondeu Dalila, e dessa vez o sorriso era verdadeiro. Ali… ela se sentia diferente. Mais leve. Com o passar do tempo, Dalila foi se soltando. Sentada com Verônica e outras amigas, a conversa começou a tomar um rumo que ela não estava acostumada. — E aquele garoto que você falou? — perguntou uma das meninas. Verônica riu. — Ah, menina… me chamou pra sair de novo. — E você vai? — Claro! Todas riram. Dalila observava, curiosa. — Vocês saem assim… sem problema? — perguntou, meio surpresa. As meninas olharam pra ela, estranhando. — Ué… claro — respondeu uma delas. — Por quê? Dalila deu um meio sorriso. — Lá em casa… não é bem assim. Verônica revirou os olhos. — Porque lá tudo é regra, né? Dalila riu, mas confirmou com a cabeça. — Tudo. As conversas continuaram. Garotos, festas, histórias engraçadas… coisas simples, mas completamente novas pra Dalila. Ela ouvia tudo com atenção, como se estivesse descobrindo um mundo novo. E, de certa forma… estava. Em determinado momento, uma das meninas se aproximou mais, animada: — Vocês já foram em baile de funk? Dalila franziu levemente a testa. — Não… — Gente, vocês precisam ir! — disse ela, empolgada. — Tem uns lá no morro perto daqui que são muito bons! Verônica riu. — Eu já fui uma vez… é outra vibe. Dalila ficou curiosa na hora. — Como assim? A menina respondeu, com brilho nos olhos: — É música alta, gente dançando, liberdade… ninguém te julgando por nada. Aquilo mexeu com Dalila. — Sério? — Muito! — continuou ela. — A gente podia marcar de ir um dia. Verônica olhou pra Dalila, provocando: — Imagina você lá… Dalila riu, mas não descartou a ideia. Pelo contrário. — E por que não? As meninas se entreolharam, animadas. — Então pronto! Vamos marcar! Dalila ficou em silêncio por um instante, absorvendo aquilo. Um baile no morro. Algo completamente fora da realidade dela. Exatamente o tipo de coisa que os pais proibiriam sem pensar duas vezes. E talvez… exatamente o que ela precisava. Um leve sorriso surgiu no rosto dela. — Eu quero ir. Naquele momento, sem perceber… Dalila dava mais um passo pra longe da vida perfeita… E mais perto de um mundo onde tudo era intenso, imprevisível… E perigoso.
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