Capítulo 16

1164 Words
Naquela manhã, a casa de Dalila seguia exatamente como sempre foi: silenciosa, organizada… e controlada. Ela estava sentada à mesa, tomando café com a postura impecável que aprendeu desde pequena, quando a mãe entrou no ambiente com aquele olhar que sempre vinha antes de alguma cobrança. — Hoje é o aniversário daquela sua amiga… como é mesmo o nome? — Verônica — respondeu Dalila, tentando soar natural. O pai abaixou o jornal devagar, analisando. — Aquela menina… a família dela não é do nosso círculo. Dalila já esperava aquilo. Sempre vinha. — A gente cresceu juntas — disse, calma, mas firme. — É importante pra mim. A mãe trocou um olhar com o pai antes de falar: — Você sabe que precisa ter cuidado com os lugares que frequenta. Nossa imagem… Dessa vez, Dalila interrompeu. Não com desrespeito… mas com algo novo. Firmeza. — Eu só vou num aniversário. O silêncio pesou. Não era comum ela bater de frente. No fim, o pai suspirou. — Tudo bem. Mas nada de exageros. E queremos você de volta cedo. — Tá bom. Por fora, obediente. Por dentro… decidida. Horas depois, quando Dalila chegou na casa de Verônica, tudo parecia diferente. A casa era simples, cheia de gente, música alta, risadas espalhadas. Nada de aparência perfeita… mas cheia de vida. Assim que entrou, Verônica correu até ela. — Eu não acredito que você veio! Dalila riu, abraçando a amiga. — Eu também não. E naquele momento, era verdade. Ali… ela se sentia leve. Com o passar do tempo, sentada com as amigas, Dalila começou a ouvir conversas que não faziam parte do mundo dela. Garotos. Saídas. Convites. Liberdade. — E aquele menino? — perguntou uma das garotas. — Me chamou pra sair de novo — respondeu Verônica, rindo. — E você vai? — Claro! Todas riram. Dalila observava, curiosa… quase encantada. — Vocês saem assim… sem problema? As meninas estranharam. — Ué, claro… por quê? Ela deu um meio sorriso. — Lá em casa não é assim. — Porque lá tudo é regra — disse Verônica, revirando os olhos. Dalila confirmou com a cabeça. — Tudo. As conversas continuaram, cada história abrindo uma nova janela pra um mundo que ela nunca teve acesso. Até que uma das meninas perguntou: — Vocês já foram em baile de funk? Dalila franziu a testa. — Não… — Vocês precisam ir! — disse a garota, animada. — Lá no morro tem uns muito bons! Verônica riu. — É outra vibe. Dalila se inclinou um pouco, interessada. — Como assim? — Música alta, gente dançando… liberdade. Ninguém te julgando por nada. Aquilo tocou nela. Profundo. — Sério? — Muito! A gente podia ir um dia. Verônica olhou pra Dalila, provocando: — Imagina você lá… Dalila riu. Mas dessa vez… não descartou. — E por que não? As meninas se animaram na hora. — Então pronto! Dalila ficou em silêncio por um instante. Um baile. No morro. Algo completamente fora da realidade dela. Exatamente o tipo de coisa que os pais proibiriam. E exatamente o tipo de coisa que agora… ela queria. Um leve sorriso surgiu. — Eu quero ir. E, sem perceber… Dalila dava mais um passo pra longe da vida perfeita… E mais perto de um mundo intenso, imprevisível… E perigoso. Enquanto isso no morro Pablo tava de pé logo cedo. Aqui no morro, não tem muito disso de dormir até tarde. O movimento começa cedo… e quem quer crescer tem que acompanhar. Tava na minha casa nova, encostado na pia, tomando café, olhando pela janela. Lá de cima dava pra ver tudo. Gente subindo, descendo… cada um no seu corre. E eu já não era mais só mais um ali. Isso dava pra sentir. Mas junto com isso… vinha responsabilidade. E cobrança. Terminei o café e nem demorou muito pra baterem no portão. — O chefe quer te ver. Eu nem perguntei nada. Só peguei a camisa e fui. O caminho até lá já não parecia tão estranho quanto antes. Pelo contrário… parecia até mais curto. Quando entrei, já senti o clima. Pesado. Timóteo tava lá, junto com mais dois caras. Cara de problema. — Senta aí — ele disse. Sentei, mas já ligado. — Tá dando prejuízo lá embaixo — ele continuou. — Dinheiro sumindo. Cruzei os braços, pensando. — E? Ele me encarou. — Quero que você descubra. Na hora, entendi. Não era só olhar. Era entrar no meio. — E se eu achar? — Aí você volta e me conta. Ficou um silêncio… mas o que ele não falou ficou claro. Aquilo podia ir além. Peguei o endereço e desci sozinho. Primeira vez sem ninguém. E isso já dizia muito. Quando cheguei no ponto, tudo parecia normal. Movimento, troca rápida, gente entrando e saindo. Mas eu já sabia… não era. Entrei como se fosse só mais um. Nada de postura dura. Nada de chamar atenção. Aqui, quem aparece demais… vira alvo. — Tu é novo? — um cara perguntou, me olhando. — Tô dando uma força — respondi, tranquilo. Ele ficou me analisando… mas deixou. — Então fica aí e aprende. Foi o que eu fiz. Fiquei observando tudo. Quem pegava o dinheiro. Quem anotava. Quem evitava olhar. E aí eu vi. O magro. Quieto demais. Rápido demais contando. E, de vez em quando… sumia com nota sem registrar. Fingi que não vi. Continuei ali, ajudando, ganhando espaço. Horas depois, puxei conversa com outro. — Tá meio estranho hoje, né? Ele deu de ombros. — Já tem tempo isso aí. Pronto. Confirmação. Mas eu queria certeza. No final, fui direto no cara. — Quer ajuda pra fechar? Ele não quis no começo… mas cedeu. E aí eu vi de perto. Sem dúvida. Ele separava uma parte… e guardava. Desvio. Na cara. Mas eu não reagi. Nem pisquei. Saí de lá como se nada tivesse acontecido. Subi o morro já sabendo. Quando cheguei, fui direto. — Tem alguém roubando. O silêncio caiu. — Quem? — Timóteo perguntou. — Eu posso provar. No dia seguinte, voltei. Mas dessa vez… ele tava junto. Disfarçado. Observando. Eu fiz tudo igual. Me misturei. Esperei. E aconteceu de novo. Mesmo movimento. Mesma rapidez. Mesma falha. E dessa vez… não passou. Os caras já pegaram ele na hora. O ponto parou. Silêncio total. Timóteo entrou. — Continua — ele disse pros outros. Ninguém nem respirava. Depois, mais afastado… o cara tava ajoelhado, tremendo. Pedindo. Mentindo. Tentando se salvar. E aí… o Timóteo olhou pra mim. — Você. Naquele momento… eu entendi. Não era mais sobre observar. Era sobre decidir. Eu respirei fundo. Olhei pro cara. E falei: — Ele sabia o que tava fazendo. Pronto. Ali… eu cruzei mais uma linha. Sem volta. Mais tarde, o Timóteo veio até mim. — Agora eu sei com quem posso contar. Eu não respondi. Mas sabia. Cada passo ali dentro… me puxava mais fundo. E eu já não tava mais só tentando sobreviver. Eu tava começando a fazer parte de verdade. E nesse mundo… Isso cobra caro.
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