— Vamos ali… quero te levar em um lugar.
Quando ele disse isso, eu só levantei.
Nem perguntei pra onde.
Naquele ponto… eu já tinha entendido que, naquele mundo, você não questiona. Você acompanha.
Entramos no carro, e logo atrás vieram os outros, os homens dele.
O trajeto foi em silêncio.
Mas não era um silêncio vazio… era carregado.
Quando chegamos, eu entendi.
A boate.
Luzes cortando a fumaça, o som do funk batendo forte no peito, corpos se movendo sem parar… tudo ali era intenso demais.
Mas o que mais me chamou atenção…
Foi o jeito que tudo mudou quando ele entrou.
O respeito veio na hora.
Olhares abaixando.
Espaço abrindo.
Como se ele fosse dono não só daquele lugar… mas de tudo.
E talvez fosse.
Eu percebi na hora.
— Fica à vontade — ele disse, se jogando no sofá da área VIP, tranquilo… como se estivesse na própria casa.
Eu fiquei ali, observando.
Absorvendo.
Entendendo o tamanho daquilo tudo.
Não demorou muito.
As mulheres começaram a se aproximar.
Bonitas.
Confiantes.
Sabiam exatamente o que estavam fazendo.
Sorrisos, toques, olhares… tudo natural.
Como se fosse rotina.
Uma delas se inclinou no ouvido dele… falou algo que eu não ouvi.
Ele sorriu de leve.
Eu continuei quieto.
Só olhando.
Até que uma delas veio até mim.
Segurou minha mão.
Firme.
Olhou direto nos meus olhos.
— Vem comigo.
Eu hesitei.
Por um segundo.
Mas levantei.
Quando olhei de lado, vi que ele estava me observando.
Em silêncio.
Como se estivesse me testando.
O corredor era diferente.
Mais silencioso.
A música já não chegava tão forte.
Ela abriu a porta e entrou.
Eu fui atrás.
Lá dentro… luz baixa.
Ambiente fechado.
Controlado.
Ela começou a se mover devagar.
Confiante.
Como se soubesse exatamente o efeito que causava.
Eu fiquei parado no começo.
Observando.
Mas, aos poucos…
Eu parei de pensar.
E só deixei acontecer.
Horas depois…
Quando eu saí daquele quarto, ajeitando a roupa…
Eu senti.
Tinha alguma coisa diferente em mim.
Meu olhar…
Mais frio.
Mais firme.
Mais distante.
Ele ainda estava lá.
Sentado.
Bebendo com calma.
Como se nada tivesse mudado.
Mas tinha.
Ele olhou pra mim.
— E aí… gostou da vida que eu posso te dar?
Eu segurei o olhar dele por alguns segundos.
— Tô começando a entender.
Ele sorriu.
De leve.
— Isso aqui é só o começo… mas tudo tem um preço.
E eu entendi aquilo também.
No outro dia, eu m*l tinha dormido quando bateram na porta.
Forte.
Eu abri.
Um dos homens dele.
— O chefe quer te ver. Agora.
Eu só assenti.
Nem perdi tempo.
Já sabia.
Ali… cada chamada era um teste.
Ou um aviso.
Quando entrei, ele já estava lá.
Sentado.
Calmo.
Como se estivesse me esperando há horas.
— Dormiu bem?
— O suficiente.
Ele levantou os olhos.
Direto em mim.
— Hoje você vai fazer uma cobrança pra mim.
Na hora, o clima mudou.
Eu senti.
— Quanto?
— Cinquenta mil.
Ele levantou.
Veio até mim devagar.
— Quero ver como você se comporta. Pressiona… mas não perde o controle.
Eu fiquei firme.
Por fora.
— E se ele não tiver?
Ele deu aquele meio sorriso.
— Você faz ele dar um jeito.
Silêncio.
— Só não mata.
Eu assenti.
— Onde?
Ele me deu o endereço.
— Vai com dois meus. Mas quem resolve… é você.
Guardei o papel.
Quando virei pra sair—
— E Pablo…
Parei.
— Não me decepciona.
Eu não respondi.
Mas entendi.
Dentro do carro, olhei o endereço de novo.
Respirei fundo.
Mais um passo.
Talvez o mais importante até agora.
— É ali — um deles falou.
Casa simples.
Portão torto.
Nada demais.
Mas ali… era tudo.
Eu desci primeiro.
Fui direto.
Bati na porta.
Forte.
Nada.
Bati de novo.
— Eu sei que você tá aí!
A porta abriu devagar.
O cara já veio com medo no olhar.
— O que vocês querem?
— Você sabe.
Sem enrolar.
Ele tentou disfarçar.
Mas dava pra ver.
— Eu… eu já ia resolver…
Eu avancei um passo.
Invadi o espaço dele.
— Já faz tempo que você “ia resolver”.
Os dois entraram atrás de mim.
Fecharam a porta.
O clima mudou na hora.
— Cinquenta mil.
Olhei direto nos olhos dele.
— Ou você acha que pode brincar com a gente?
— Eu não tenho tudo…
Silêncio.
Eu lembrei do que ele disse.
Pressionar.
Sem perder o controle.
Então eu fiz diferente.
Peguei uma cadeira.
Sentei.
Na frente dele.
— Me escuta bem…
Falei baixo.
Mas firme.
— Eu não vou sair daqui sem nada. Mas também não sou burro.
Ele engoliu seco.
— Quanto você tem agora?
— Vinte…
Eu assenti.
— Vai buscar.
Ele praticamente correu.
Um dos caras atrás de mim falou baixo:
— Só isso?
Eu respondi sem olhar:
— Confiança também cobra juros.
Ele voltou.
Mãos tremendo.
Eu contei.
Com calma.
— Faltam trinta.
— Me dá um tempo…
Eu levantei.
Devagar.
Cheguei perto.
Falei no ouvido dele:
— Dois dias.
Pausa.
— Na próxima… não vai ser conversa.
Ele assentiu.
Desesperado.
Saímos.
No carro, um deles falou:
— Achei que você ia quebrar ele.
Olhei pra frente.
— Quebrar é fácil… difícil é fazer pagar.
Quando voltei, ele já estava esperando.
Joguei o dinheiro na mesa.
— Vinte agora. O resto em dois dias.
Ele olhou.
Depois pra mim.
— E você deixou ele vivo.
— Ele vai pagar mais.
Respondi direto.
— Com medo… e prazo.
Ele sorriu.
— Gostei.
Pegou o dinheiro.
— Você pensou. Não agiu como um animal.
Chamou um dos homens.
— Arruma um lugar melhor pra ele. Uma casa decente.
Eu fiquei parado por um segundo.
Aquilo não era só recompensa.
Era confiança.
Ele me olhou mais uma vez.
— Continua assim…
Pausa.
— Que você vai longe aqui.
E naquele momento…
Eu entendi uma coisa.
Eu não estava mais tentando sobreviver.
Eu estava aprendendo a jogar.
E, pior…
Eu estava ficando bom nisso.