Capítulo 8

1112 Words
A estrada parecia não ter fim. Eu dirigia sem sentir direito o volante nas mãos. Meus olhos estavam pesados… mas minha cabeça não parava. A cena não saía. O empurrão. O impacto. E depois… O silêncio. Mateus não levantou. E aquilo ficava repetindo dentro de mim, como um eco que eu não conseguia desligar. Eu não tinha mais dinheiro. Não tinha plano. E, pela primeira vez na minha vida… Eu não tinha pra onde ir. Então eu fiz a única coisa que me veio à cabeça. Desaparecer. Quando eu cheguei em São Paulo, já era noite. A cidade grande… cheia… viva… Mas eu me sentia completamente vazio. Foi aí que eu tomei outra decisão. Talvez a pior de todas. Entrei em um dos morros mais pesados que eu conhecia de nome. E, no momento em que pisei ali… Eu senti. As vielas eram estreitas. Mal iluminadas. E todo mundo observava. Homens armados. Olhares desconfiados. Ali… qualquer estranho era problema. Ou ameaça. Eu desci do carro devagar. Tentando não mostrar o nervosismo. Mas por dentro… Meu coração estava acelerado. — Tá perdido, parceiro? A voz veio seca. Olhei. Um cara com fuzil no ombro. Me medindo. Eu engoli seco. — Tô procurando um lugar pra ficar… e trabalho. Ele riu. Do jeito de quem já viu muita gente como eu. — Aqui não é hotel. Outro homem se aproximou. Mais sério. Mais frio. — Já fez o quê na vida? Eu pensei por um segundo. Mas sabia que ali… não dava pra parecer fraco. — Faço o que precisar. Silêncio. Pesado. Até que ele assentiu. — Então vai ter que provar. E foi aí que eu entrei de verdade. Fui levado mais pra dentro. Becos mais escuros. Mais fechados. Mais perigosos. E, a cada passo… Eu entendia. Eu não estava só fugindo da polícia. Eu estava entrando em algo muito pior. E talvez… Sem volta. O ar lá dentro era diferente. Pesado. Como se cada passo me afastasse mais da vida que eu tinha. Me levaram até uma casa simples por fora. Mas por dentro… Era movimento o tempo todo. Gente entrando e saindo. Rádio chiando. Arma encostada em todo canto. E no meio de tudo… Ele. Sentado. Observando. — Então é esse? A voz era calma. Mas mandava ali. Eu fiquei em silêncio por um segundo. Sabendo que aquilo ia definir tudo. — Sou eu. Ele me olhou de cima a baixo. Frio. — Aqui não tem espaço pra erro… nem pra covarde. Quer ficar, trabalha. Quer fugir… Ele nem terminou. Não precisava. — Eu fico. Eu falei. Sem pensar duas vezes. Ele sorriu de leve. Mas não era um sorriso bom. Era de quem acabou de ganhar mais uma peça. — Então começa hoje. Sem enrolação, me deram uma mochila. Eu abri. E na hora entendi. Droga. Meu estômago revirou. Mas não tinha mais volta. — Vai com o Juninho. Primeira entrega. Um garoto fez sinal pra eu seguir. — Fica tranquilo… só não faz besteira. A gente desceu pelas vielas. Tudo era observado. Tudo era controlado. — Aqui é assim — ele falou baixo. — Ou entra… ou vira problema. Chegamos no ponto. Um cara apareceu. Pegou o pacote. Deixou o dinheiro. Sumiu. Rápido. Simples. Perigoso. Eu percebi minhas mãos tremendo. Mas eu não podia mostrar. Não ali. Quando voltamos, entreguei o dinheiro. O chefe contou devagar. Olhando pra mim. — Primeira fez. Uma pausa. — Ainda tá vivo. Depois ele me olhou diferente. Mais sério. — Mas aqui não é só isso. Vai ter hora que vai ter que cobrar… intimidar… Ele não terminou. Mas eu entendi. Naquela noite, deitado num colchão velho… Eu fiquei olhando pro teto. Sem sono. Sem paz. A imagem do Mateus voltou. O som. O corpo caindo. Eu fechei os olhos. Com força. Mas dessa vez… Tinha algo diferente. A culpa ainda estava ali. Mas não sozinha. Tinha outra coisa crescendo junto. Frieza. Porque, no fundo… Eu sabia. Se eu quisesse sobreviver ali… Eu ia ter que deixar de ser quem eu era. E talvez… Nunca mais voltar. Os dias começaram a passar rápido. Eu já não era mais um estranho. Fazia entrega. Ajudava nas cobranças. Andava armado. E, aos poucos… Eu fui ganhando espaço. Mas ali… Ninguém confia em ninguém. E o chefe… Via tudo. Numa noite, me chamaram. — O chefe quer falar contigo. Meu coração acelerou. Eu fui. Ele estava lá. Sentado. Com um copo na mão. Olhando pra rua. — Senta aí. Eu sentei. — Tu não é daqui. Eu fiquei quieto. — Dá pra ver. Ele virou o rosto devagar. — Ninguém aparece aqui do nada sem história. Eu engoli seco. — Então me conta… de quem tu tá fugindo? A pergunta bateu forte. Eu pensei em mentir. Mas aquele olhar… Não deixava. Eu respirei fundo. — Eu não tô fugindo de alguém… Parei. — Tô fugindo do que eu fiz. Minha voz saiu pesada. — Eu confiava neles… nos dois. Passei a mão no rosto. — Minha mulher… e meu melhor amigo. Ele não falou nada. Só ouviu. — Eu vi… com meus próprios olhos. Minha mão fechou em punho. — Eles riam… como se eu fosse um i****a. O silêncio ficou pesado. Mas eu continuei. — Eu perdi o controle… Olhei direto pra ele. — Eu matei ele. Falar aquilo em voz alta… Foi diferente. Mais real. Mais pesado. Ele cruzou os braços. — E ela? Eu fechei os olhos. Por um segundo. — Eu não consegui. Respirei fundo. — Mas quis. Abri os olhos. — Até hoje não sei se foi fraqueza… Ele cortou. — Não foi. Eu levantei o olhar. — Foi escolha. Aquilo me pegou. — Fraqueza é fugir. Ele deu um passo. — Você tá aqui. Eu fiquei em silêncio. Pela primeira vez… Menos tenso. Ele começou a andar. — Sabe o que eu vejo em você? Parou na minha frente. — Alguém quebrado… Uma pausa. — Mas que não virou lixo. Eu não respondi. Só ouvi. — Aqui ninguém é santo. Ele continuou. — Mas também não aceito covarde. Ele apontou de leve pra mim. — E você… não é. Eu engoli seco. — Eu não tenho mais nada… Falei baixo. — Nem vida… nem caminho. Ele riu de leve. — Tem sim. Respondeu. — Só não é o mesmo de antes. Então ele estendeu a mão. Pra mim. — Se ficar comigo… Uma pausa. — Vai aprender a transformar essa dor em força. Eu olhei pra mão dele. Depois pra ele. — Aqui… Ele completou. — Ou você se reconstrói… Outra pausa. — Ou desaparece. E naquele momento… Eu entendi. Eu já tinha cruzado a linha. E não tinha mais volta.
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