Capítulo 3

2103 Words
Max Vladi Suspiro pesadamente, encarando meu word aberto com as páginas em branco, estou aqui a exatamente uma hora, e nada, não saiu nada. Me recosto sobre minha cadeira e passo minha mão por meus cabelos longos que batem em meus ombros, os deixando desorganizado em minha cabeça. Olho ao redor do meu escritório, que fica localizado em minha mansão, aqui é meu refúgio, essas quatro paredes repletas de livros nas estantes do chão ao teto, me deixa calmo sempre, é aqui que encontro paz, na maioria das vezes, pois como agora, nem mesmo isso me traz luz. Escuto a música clássica que sai do meu celular que está ao lado do meu notebook, isso costuma me relaxar também, me dar ideias, mas nada, eu não consigo escrever nada. Queria sair correndo por entre os portões da minha casa, correr e não olhar para trás, ir para um lugar desconhecido, e me perder, apenas isso, me perder por uns minutos e ver se minha cabeça volta a funcionar. Desde os meus dezoito anos, que foi quando comecei a escrever, que não tenho um momento como esse, sempre que me sentava sobre essa cadeira e abria meu word, vinha milhares de ideias, eram tantas que nem mesmo meus dedos conseguiam acompanhar e escrever tudo. Mas agora, aos meus trinta e um anos, passo pela minha primeira crise. Nem um nome para meu personagem eu consigo pensar. Me pergunto o que está acontecendo comigo. Será que perdi o gosto pela escrita? Acho que não, pois só de pensar nisso, sinto-me estranho. Acho que apenas... p***a! Não gosto de admitir isso, mas pela primeira vez, me encontro sem inspiração. O que me deixa mais irritado, nunca precisei de inspiração, a não ser os relacionamentos fracassados que já tive ao longo de minha vida. Ao todo? Foram sete namoros que não deram certos, ou eles diziam que eu era muito frio e não lhes dava atenção, ou apenas me traiam pelo mesmo motivo, eu não os transformar no centro do meu mundo. Como se para ter um relacionamento bom, eu precisasse está no pé dessa pessoa vinte e quatro horas por dia. c*****o, tem que saber que todos precisamos de momentos a sós, claro que é bom ter companhia, mas para tudo tem limites, até para cagar eu tinha que mandar mensagem avisando. p***a, isso não é para mim. Claro que quero ter um relacionamento, quem sabe um dia até casar-se, mas cada um deve respeitar o espaço do outro, vamos dividir tudo, tristezas, alegrias, mas vai ter momentos que vou querer apenas ficar sozinho com meus pensamentos, é difícil entender isso? Acho que não! Mas nunca vou achar essa pessoa que se encaixe tão bem a mim. Por isso escrevo sobre ele. Ele vive em meus pensamentos e personagens fictícios, pois sei que nunca vou o encontrar ao vivo e em cores. Meio depressivo? Pois é, muito. Mas é assim que penso. Não estou procurando alguém perfeito, estou procurando apenas alguém que me entenda, e que me ame do jeito que eu sou. Que me deixe leve, que me faça rir, assim como farei de tudo para ver um sorriso nele. Quero apenas alguém. Caralho, eu estou fodido, isso sim, pensar nessas besteiras me deixa ainda mais para baixo, assim não vou ter ideias para novos livros nunca! Estou viajando demais, isso sim, preciso começar e terminar esse livro, tenho um prazo de ainda dois meses pela frente, e pela primeira vez, estou com medo de não entregar a tempo. Tomo um leve susto ao ter minha porta aberta com brusquidão e por ela passa meu irmão cinco anos mais novo que eu. Adam, eu diria que ele se parece bastante comigo, sua pele n***a e cabelos pretos como os meus, olhos castanhos, e porte físico malhado, apenas seus cabelos curtos é que nos diferem um pouco, muitos até acham que somos gêmeos. Ele sente na cadeira a minha frente bufando de raiva, e eu acho que sei o motivo de toda sua fúria. Minha mãe é uma advogada de renome, muito conhecida, e papai é o CEO de uma empresa de segurança, empresa essa responsável por toda a segurança da casa da família Vladi, ainda mais por minha causa, pois querendo ou não, sou um escritor famoso tanto nacional quanto internacionalmente, e ainda moramos todos juntos nessa mansão, fui criado aqui desde que nasci, cresci correndo por esses corredores e pelo grande jardim. Aqui fui, e sou muito feliz. - O que aconteceu? Brigou com Ava novamente? – Pergunto vendo-o passar a mão pelos cabelos em sinal claro de nervosismo. - Sinceramente não sei o que fazer com essa mulher. – Ele diz claramente chateado. – p***a, faz quase um ano que estamos namorando, eu demostrei de todas as formas que a amo, mas ela ainda continua insegura, não me deixa a tocar, amar aquele corpo gostoso. Claro que eu não iria forçar ela a t*****r comigo, mas eu sinto, eu sei que ela quer tanto quanto eu, é apenas por causa da p***a da insegurança, por não se achar linda e mulher o bastante para mim. Só que falar essa p***a me deixa estressado. – Ele diz parecendo realmente irritado. Eu suspiro fundo, deixando meu notebook de lado por uns minutos para tentar ajudar meu irmão. - Tente entender ela irmão, não é fácil ser quem ela é no mundo hoje. – Ele me olha, seus olhos agora têm lágrimas não derramadas. - E você acha que eu não sei? Quando nos conhecemos ela foi clara em me falar sobre ela, mas gostei tanto dela que continuamos saindo, até porque, eu sou hetero, e ela é uma mulher fodida de gostosa, não teve como eu me apaixonar, eu pesquisei sobre, tentei me manter atualizado, saber sobre tudo do mundo dela, p***a, eu me senti m*l com as coisas que eu li, com o preconceito, a intolerância, nossa família passou pelo preconceito, ainda passamos, somos uma família rica, mas somos negros, sempre tem um olhar atravessado, e tudo o que pessoas trans passam, c*****o irmão, isso é desumano. – Respiro fundo. - Se acalma, ficar nervoso assim não vai te levar a lugar nenhum. – Ele respira pesadamente. - Eu intendo o medo dela, p***a como eu intendo, mas sou eu, o namorado dela, como ela pode ter medo de se mostrar para mim? Eu só sei amar aquela mulher, cada vez mais. – Ele diz parecendo bastante abalado. - Ela sabe que você foi hetero a vida toda, ela apenas tem receio que você não goste do que vai encontrar. - Eu não deixei de ser hetero, porque ela é uma mulher, a p***a de uma mulher. A mais linda que já pus os olhos. Como faço ela entender isso? - Pode ser difícil, apenas esteja do lado dela, mostrando em cada contato, cada ação, o quanto você a ama. Descanse um pouco, coma algo, durma, e quando estiver melhor, tenha uma conversa sincera com ela, diga o quanto você a ama, e deixe claro que não é o que ela tem no meio das pernas que a faz menos mulher. – Ele olha para o chão, parecendo acabado. - É, acho que preciso de horas de sono, sai do hospital, tive uma cirurgia complicada, perdi um paciente hoje, fui vê-la e acabamos brigando, acho que tudo que passei me deixou ainda mais puto pela perda de hoje mais cedo, acabei descontando nela minhas frustações, o que acabou na briga. – Ele diz, parecendo perceber que pegou pesado com a namorada. - Descanse, coloque a cabeça no lugar e depois fale com ela. Tenho certeza de que logo vocês vão estar bem, vocês se amam demais. - É. – Ela me olha parecendo me enxergar pela primeira vez desde que chegou em minha sala. – E você? Escrevendo? Entrei aqui com tudo e nem mesmo notei que te atrapalhei. - Não estou conseguindo escrever. – Falo simples, ele se endireita sobre a cadeira, me olhando preocupado. - Como assim não consegue escrever? Aconteceu algo? - Nada, e esse é o problema, não está acontecendo nada. - Por que não sai um pouco? Distrai a mente. Vivi enfurnado nesse escritório, sai uma vez no mês de casa e olhe lá. – Ele diz em forma de repreensão. - Está exagerando, sempre que posso estou saindo. - Mas não se diverti, não conhece pessoas novas, só vai naquela livraria no shopping e pronto. Tem que viver mais irmão. - Já aproveitei o que tinha que aproveitar durante os vinte anos, hoje quero apenas descanso, um lugar tranquilo para escrever em paz. - Pois parece que isso não está funcionando, não consegue escrever. – Os olhos com desagrado. – Só falei a verdade, você precisa de um namorado, isso sim. – Reviro os olhos para ele. - Vai dormi, eu vou sair agora. - Vai para o shopping de novo? – Adam fala enquanto segue em direção a porta. - Sim, vou, agora tchau. - Seu velho chato. – Diz passando pela porta. - Velho é o teu pai. -Ele vai ficar sabendo disso! – Ele fecha a porta com um sorriso malicioso. - i****a! – Resmungo baixinho. Pego meu celular que parou a muito tempo de tocar música e abro no contato de Leandro, meu segurança pessoal e motorista, assim como é meu melhor e único amigo, ele cuida da minha segurança desde os meus vinte anos, e nos tornamos amigos desde então. “Vou sair em dez minutos.” Vejo que ele logo visualiza. “Mesmo lugar de sempre?” Sua pergunta chega segundos depois. “Isso mesmo.” Respondo simples. “Sim, meu senhor, vou estar te esperando em sua carruagem.” Reviro os olhos por sua brincadeira. Saio do escritório depois de pegar minha carteira e calçar meus tênis que tinha tirado para ficar mais confortável. Acabo me encontrando com minha linda mãe na sala de casa, vejo seus lindos cabelos preso num coque desleixado, deixando seus cachos caindo um pouco por seu rosto, posso até notar os fios já brancos misturados com o castanho, minha mãe é uma linda n***a dos olhos pretos, como eu amo essa mulher. Me aproximo dela sentada no sofá e deixo um beijo em sua testa. - Falou com seu irmão? Ele passou por mim, mas nem me notou aqui. - Solto uma risadinha. - Ele vai ficar bem, apenas problemas com sua nora. – Ela suspira em preocupação, para depois me olhar atentamente. - Vai sair? - Vou ao shopping mãe. - Você nem almoçou ainda meu filho. Coma algo antes de sair. - Vou comer em algum restaurante por lá com o Leo, não se preocupe. - Ok, se cuidem. – Deixo um beijo em seus cabelos e sigo para fora de casa, encontrando o carro esperando por mim, assim que adentro no assento ao lado do motorista, Leo da partida, passando pelos grandes portões de minha casa. - Sem conseguir escrever de novo? – Ele pergunta de olho no trânsito. - Tipo isso. Não consigo ter ideias para o meu novo livro. - Entendi. Você precisa relaxar mais, sair, conhecer pessoas. – Desvio meus olhos da estrada para olhar para ele, que continua focado na pista. - Isso é algum tipo de complô? Você é a segunda pessoa a me falar isso em menos de uma hora. – Digo um pouco irritado. Ele apenas rir e segue dirigindo. Acabamos apenas por conversar assuntos triviais, deixando outros assuntos de lado. Uns quarenta minutos depois estamos estacionando o carro na garagem do shopping. Descemos do carro e logo estamos andando em direção ao elevador, mas tudo acontece rápido demais, quando vejo estou indo de encontro a um corpo bem mais baixo que o meu, o rapaz quase vai ao chão, mas sou rápido e o pego pela cintura, o mantendo firme contra meu corpo. Noto a pele branca do pequeno homem, e logo nossos olhos fazem contato, p***a, esses são os olhos verdes mais lindo que já vi, sua boca carnuda e vermelhinha também não passa despercebido por mim, ele tem um ar tão delicado que me vejo hipnotizado por seu rosto angelical. - Uau. – Seu suspiro não passa despercebido por mim. Juro que faltou pouco para que o mesmo som saísse de minha garganta, eu estava diante de um homem lindo, de olhos intensos e chamativos. Caralho, eu o quero para mim! Loucura, não é? Mas meu bem, quando vemos um homem desses, não podemos simplesmente deixar escapar sem que pelo menos um beijo provar. E eu estava louco para beijar aquela boca desconhecida.
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