Juliano
As coisas saem completamente do controle. Eu me descontrolo e começo a agir como um primata. Vejo que a Talita tenta pegar a chave do carro e fugir, não posso permitir isso. Não posso permitir que ela suma, o Sávio vai se aproveitar disso e ele sabe que minha fraqueza é ela. Ele vai atrás dela fingindo ser uma pessoa boa, mas ele não tem boas intenções. Ele vai tentar machucar a minha mulher para me prejudicar, eu não posso permitir isso.
Por mais que esteja doendo em mim, eu preciso esperar essa mulher se acalmar. Se ela sair dessa maneira, será um alvo fácil. A levo a força para o quarto de hóspedes e pego o seu celular, ela resiste, mas eu sou mais forte e ela acaba caindo da cama. Espero que não tenha se machucado, eu estou tentando segurá-la de uma forma que não a machuque, mas está sendo impossível. Ela fica no chão, de costas pra mim. Parece que perdeu suas forças.
Pego o seu celular e tenho um surto de raiva ao ver a primeira mensagem que aparece.
- Espero que esteja tudo bem, se precisar de alguma coisa eu estou aqui. Pode vir para a minha casa, ele não vai te fazer m*l. – O Sávio planejou tudo isso e eu não estou sabendo como resolver, só estou piorando as coisas.
Quebro tudo o que está na minha frente e soco a parede até as minhas mãos sangrarem. Confiro se a porta está bem trancada e vejo que ela está tentando abrir de qualquer maneira, mas essa porta é revestida e isso seria impossível. Ouço estrondos fortes dela tentando abrir e só consigo pensar que ela pode se machucar com isso.
Pego a chave do meu carro e saio para comprar um calmante e alguns remédios. Não sai da minha cabeça que eu a apertei muito forte tentando segurá-la, ela caindo da cama, ela chorando. Isso consome minha mente. Compro os remédios e algumas comidas prontas no mercado, ela precisa comer.
Ligo para a babá e falo para ela falar para as crianças que tivemos uma emergência no trabalho e para trocar o turno com a babá da noite, lá mesmo, no meu apartamento. Ainda, falo para pedir comida e o que precisarem no app que tem o meu cartão logado.
Chego na casa e pego algumas roupas e uma toalha, para ela tomar banho e se acalmar. Quem sabe assim conseguimos conversar. Quando entro no quarto, ele está todo escuro e ela está no canto do mesmo. Sentada no chão, com a testa apoiada no joelho. Coloco as coisas em cima da cama, bem como a comida na mesinha. Acho que ela precisa de mais tempo, mas quando vou sair, vejo pingos de sangue no chão e esses seguem para o banheiro, que está todo ensanguentado.
Meu deus, o que pode ter acontecido? Será que ela se machucou propositalmente? Isso, definitivamente, não é a cara dela. Chego mais perto e falo com ela, porém ela não me responde. Quando levanto a sua cabeça sinto o meu mundo cair. Seu supercílio está aberto, com sangue seco. O corte não foi fundo, mas foi o suficiente para encher sua camisa social de sangue, seu rosto está inchado e eu tento me recordar em que momento isso aconteceu. Até que a confronto e ela joga na minha cara que foi quando ela saiu da cama.
Eu estava tão cego para pegar o seu celular, que não percebi que ela bateu o rosto na quina da mesa. Pensei que só tinha caído no chão. Tento levantá-la para sair dali, mas quando puxo no seu braço, mesmo sem colocar força, ouço um estrondo, acredito que seja do seu ombro, e ela grita de dor. A dor é tão intensa que ela perde os sentidos. Seu ombro se deslocou e ela desmaia.
Entro em desespero e começo a chamar o seu nome, mas ela não acorda. A pego no colo e coloco na nossa cama, preciso colocar o ombro dela no lugar antes dela acordar, porque essa é uma das piores dores da vida.
Amarro seus braços com um lençol e faço a manobra para colocar seu ombro no lugar, o estalo é imenso. Confiro e o ombro voltou para o lugar. Limpo suas feridas do rosto e faço um ponto falso, que segura bem. Coloco álcool no seu nariz e ela vai retomando os seus sentidos. Ainda desorientada e grunhindo de dor.
- Talita, calma. Está tudo bem. Você está livre. Eu não vi que você estava machucada. Me perdoa, eu não vi que você tinha se machucado.
- Meus filhos... – Ela ainda está muito tonta.
- Eles estão bem, estão com a babá. Amanhã voltarão. Eu só os tirei de casa para não presenciarem a nossa discussão. O seu ombro estava deslocado, eu não sei como isso aconteceu. Ele estava parcialmente deslocado e quando fui te levantar do chão, ele deslocou de vez. Eu não sabia, Talita. Eu não sei como isso foi acontecer, eu o coloquei no lugar quando você desmaiou.
- Não encosta em mim... – Ela fala com dificuldade.
- Não vou encostar, nunca mais. Eu prometo. Não vou mais chegar perto de você. Me perdoa. Eu vou assinar o divórcio e vou te deixar em paz. Eu não queria que isso tivesse acontecido. A única coisa que eu te peço é que tome esses remédios e me deixe te ajudar a cuidar dos outros machucados. Você está com tontura ainda, não pode ficar sozinha nesse momento. Amanhã você vai ao hospital, vai na delegacia, faz uma denúncia. Eu não me importo, eu só preciso garantir que você está bem agora. – Falo e ela não me responde nada, é nítido que ainda está atordoada.
- Vou tirar a sua roupa para cuidar dos seus ferimentos. – Eu aviso e ela não se opõe.
Vejo seu braço cheio de hematomas, alguns compatíveis com o momento que eu a segurei. Mas, outros, muito maiores. O ombro dela deve ter deslocado por ela tentar derrubar a porta, mas isso também é minha culpa, afinal, eu que a prendi.