Juliano
Ela me conta como foi o seu jantar com o Sávio e eu imagino o quanto ele deve ter dado em cima dela, mas ela não fala nada disso, provavelmente para evitar mais conflitos. Explico também que teremos que dormir na mesma cama, para a Ofélia não desconfiar do colchão no chão.
Será uma t0rtura, dormir sentindo o cheiro dela e não poder t0cá-la. Nesses momentos me dou conta que eu tinha tudo para ser feliz e joguei fora, nem dei o devido valor de dormir e acordar abraçado com ela e hoje estou aqui, igual um cachorro vendo o frango de padaria.
Ela seca o cabelo no banheiro e passa seus cremes, enquanto escova os dentes. Escovo os meus e deito na cama, de cueca. Ela vai até o armário e pega outro cobertor, nem dividir o cobertor comigo ela quer.
- Boa noite. – Ela fala enquanto se vira para o lado.
- Boa noite. – Respondo virando para o outro lado.
Vejo que ela dorme encolhida, no cantinho da cama. Raramente se mexe, acabo pegando no sono também e acordo quando dia amanhece. Sinto sua pele macia encostada em mim e vejo que ela dorme em cima do meu peito. Deve ter sido sem perceber, fico alguns minutos naquela posição, aproveitando o momento.
Saio com cuidado da cama e vejo que o seu celular apita, recebendo mensagens. Não controlo minha curiosidade e vejo que trata-se daquele m4ldito do Sávio.
- Bom dia para a mulher mais linda desse mundo. Espero que esteja bem, obrigado pelo jantar ontem, foi magnífico, assim como a sua presença. Se precisar de algo estou aqui. Gostaria de te ver novamente. Beijos. – Termino de ler e meu sangue ferve de raiva, não me controlo e olho as outras mensagens que ele estava mandando para ela.
Têm algumas coisas de anos atrás, ela sempre o ignorou.
Faço tudo o que preciso e resolvo sair mais cedo, vou para a academia e tomo um banho lá, para não ter que voltar para casa. Acho que a Talita precisa desse tempo longe de mim. Agendei psiquiatra depois do almoço, eu quero mais do que nunca tratar minha cabeça, porque preciso ter jogo de cintura para lidar com as situações que poderão ocorrer.
Depois do almoço me dirijo para o consultório. A médica que irá me atender se chama Carla, é uma mulher de uns cinquenta e poucos anos, que aparenta ser muito inteligente.
- Boa tarde, Juliano. Me chamo Carla, sou a responsável pela psiquiatria da clínica e irei te atender hoje. Você se sente à vontade para me contar os motivos de você procurar atendimento psiquiátrico? – Ela me pergunta e eu já gosto da maneira dela trabalhar, foi direto ao ponto.
- Boa tarde, Dra. Carla. Sim, claro. Eu sou uma pessoa muito explosiva e isso tem me custado caro, tentei empurrar com a barriga por muitos anos, mas parece que isso só piora as coisas. Recentemente, perdi o meu casamento pela dificuldade em resolver conflitos de maneira pacífica. Não agredi diretamente minha esposa, mas eu tive atitudes que a machucaram física e emocionalmente.
- Certo, isso ocorre somente no âmbito familiar ou nas outras áreas você também sente certa dificuldade em mediar conflitos? – Ela me questiona sem demonstrar espanto com os fatos que narrei anteriormente.
- Na vida pessoal sim, mas no trabalho eu consigo separar as coisas e nunca e descontrolei. – Sou sincero nas minhas respostas.
- Então notamos que é o descontrole ocorre pelo seu emocional. Se nas relações coorporativas esse controle é excessivo, tende a ser descompensado nas emoções cotidianas. – Ela fala e conversamos por mais algum tempo, conto as piores situações de descontrole e ela ouve atentamente.
- Eu entendo, gostaria de fazer alguns testes, para definirmos se isso é um traço da sua personalidade ou até mesmo algum transtorno. Mas, não se assuste, alguns transtornos são mais comuns do que imaginamos e a maioria das pessoas têm, mesmo sem saber que elas têm. São várias alternativas de tratamento. – Ela explica e isso acende um alerta na minha cabeça, será que eu tenho algum transtorno e vivi com isso durante todo esse tempo?
- Claro, faço os testes que forem necessários. – Falo e ela me encaminha para fazer um teste escrito e pede uma bateria de exames.
Agendamos a próxima consulta para a data que os exames sairiam e volto para o escritório.
Confesso que me sinto aliviado em ter passado por essa consulta, como se eu estivesse fazendo algo por mim depois de tanto tempo sofrendo. Eu sofro vendo que faço as pessoas que eu amo sofrerem. Talvez seja por ter tido uma infância difícil, por não ter tido uma família. Criei uma bolha de proteção emocional que só a Talita conseguia ter acesso, mas as minhas atitudes a fizeram sair e não querer mais voltar.
Sigo para o fórum, para resolver algumas questões que só poderiam ser resolvidas por mim e tenho o desprazer de encontrar ninguém menos que o Sávio por lá. Além de tudo é mentiroso, porque disse para a Talita que não advogava mais.
- Ora, ora... O Dr. Juliano. Quanto tempo, querido colega? Como está a família? – Ele diz com um sorriso no rosto e eu percebo que ele quer me desestabilizar para sair de vítima.
- Boa tarde, Dr. Sávio. Estamos bem, muito bem. E você? Como anda a família? – Pergunto o provocando, pois todos sabem que ele não tem família.
- Estou bem também, a família também está. Aliás, melhor do que nunca. Se eu te contar você não acredita, acho que encontrei a mulher da minha vida... É uma situação complicada, outro dia te conto com mais calma. – Sinto meu sangue ferver, se tem uma coisa que o Sávio tem, é audácia.
- Claro, não faltarão oportunidades. Agora, peço licença porque preciso resolver umas pendências, porque tenho compromisso com a minha mulher à noite. – Falo e dou um sorriso e vejo o descontentamento no olhar dele.
- Até mais, Dr. Juliano. Até breve. – Ele diz forçando um sorriso e eu saio andando, não aguento ficar mais cinco minutos perto desse animal.