Capítulo 10

971 Words
CAPÍTULO 10 MORTE Acordei antes do despertador. Quatro e cinquenta da manhã. Como quase todos os dias. O quarto ainda estava escuro quando sentei na cama e passei a mão pelo rosto. Dormi pouco. De novo. Nada novo. O silêncio durou apenas alguns segundos antes do mundo voltar a existir do lado de fora da janela. Moto. Cachorro. Alguma televisão ligada cedo demais. O Morro da Divisa nunca dormia completamente. Levantei. Tomei banho. Me vesti sem pressa. Peguei a caneca de café. Amargo. Forte. Do jeito que sempre foi. Não gostava de açúcar. A vida já tentava adoçar mentira demais. Terminei o café olhando pela janela. Lá fora o céu ainda começava a clarear. Mais um dia. Mais problema. Mais gente querendo alguma coisa. Peguei a chave e saí. As ruas ainda estavam vazias quando comecei a subir. Os poucos homens espalhados pelos becos mudavam de postura quando me viam. Não era algo que eu pedia. Acontecia. Sempre acontecia. Alguns abaixavam a cabeça. Outros apenas ficavam em silêncio. Respeito. Medo. Difícil separar os dois. Quando cheguei ao prédio onde costumava passar boa parte dos dias, encontrei dois rapazes conversando perto da entrada. A conversa morreu imediatamente. Os dois ficaram retos. Quietos. Segui andando sem olhar para trás. Subi as escadas. Abri a porta. Coruja já estava lá. Claro que estava. Sentado à mesa. Caderno aberto. Cara fechada. Caneca de café quase vazia. Parecia que não dormia havia três dias. Talvez não tivesse mesmo. — Bom dia. — Tem certeza? — respondeu ele. Joguei a chave sobre a mesa. — Tá r**m assim? Coruja fechou o caderno devagar. — Depende do ponto de vista. Sentei na cadeira. Observei a sala. Silêncio. Aquele tipo de silêncio que antecedia notícia r**m. — Fala. Ele demorou alguns segundos. — A semana tá saindo mais cara do que deveria. — Quanto? Ele respondeu. Não demonstrei reação. Mas ouvi tudo. Perdas. Erros. Gente que tinha feito promessa demais e entregue de menos. Problemas acumulados. Nada fora do comum. Mas também nada bom. Coruja continuou falando. Eu escutava. Sempre escutei mais do que falei. Talvez por isso ainda estivesse vivo. Quando terminou, a sala voltou a ficar em silêncio. Coruja me observava. Esperando alguma reação. Não dei nenhuma. Peguei a caneca. Tomei um gole de café. Frio. Ruim. Mesmo assim terminei. — E aí? — perguntou ele. — Resolve. — Só isso? Olhei para ele. — Você queria discurso? Coruja balançou a cabeça. — Não. — Então resolve. Fim da conversa. Era simples. Ou pelo menos precisava parecer simples. A porta abriu alguns minutos depois. Pitbull entrou. Grande. Pesado. Cara fechada. Andando como se quisesse arrumar problema. Talvez quisesse mesmo. — Já começou? — Já. Ele puxou uma cadeira. Sentou. — Tá uma bagunça. — Você fala isso toda semana. — Porque toda semana tá uma bagunça. Ignorei. Pitbull era útil. Mas tinha o hábito irritante de transformar tudo em guerra. Coruja era o contrário. Pensava demais. Eu passava metade do tempo impedindo um de explodir e o outro de afundar em análise. — Sábado tá chegando — falou Pitbull. Finalmente. O assunto que todo mundo parecia comentar. — E daí? — O pessoal tá animado. — O pessoal sempre fica animado. — Você não. Não respondi. Pitbull soltou uma risada curta. — Tá vendo? Coruja revirou os olhos. — Para de provocar. — Eu só tô falando a verdade. Continuei em silêncio. Os dois já sabiam. Eu não gostava de evento. Não gostava de multidão. Não gostava de confusão. E multidão sempre trazia confusão. Sempre. — Quero tudo organizado — falei. A sala ficou séria imediatamente. — Sem improviso. — Já estamos cuidando disso — respondeu Coruja. — Sem erro. — Entendido. — Sem surpresa. Pitbull cruzou os braços. — Tá achando que vai dar problema? Olhei para ele. — Eu acho que problema aparece quando as pessoas param de procurar por ele. Ninguém respondeu. Porque os dois sabiam que eu acreditava nisso de verdade. A maioria das pessoas relaxava quando tudo parecia tranquilo. Eu não. Foi exatamente nos momentos tranquilos que vi as piores coisas acontecerem. A sala ficou silenciosa novamente. Lá fora, o movimento da comunidade aumentava. Mais vozes. Mais motos. Mais vida. Mas ali dentro parecia outro mundo. Um mundo onde ninguém falava mais do que precisava. Onde todo mundo media palavras. Onde até o silêncio tinha peso. Pitbull levantou primeiro. — Vou resolver umas coisas. Assenti. Coruja continuou sentado. Folheando o caderno. Organizando anotações. Pensando. Sempre pensando. — O quê? — perguntei. Ele ergueu os olhos. — Nada. — Mentira. Coruja soltou um suspiro. — Você tá mais fechado que o normal. — E isso é possível? — Infelizmente. Quase ignorei. Quase. — Trabalho demais. — Não. — Então fala. Ele fechou o caderno. — Você tá irritado. Pensei alguns segundos. Talvez estivesse. Talvez estivesse há anos. — Faz diferença? — Pra quem tá perto de você, faz. Voltei a encarar a janela. A comunidade já estava completamente acordada. Milhares de pessoas vivendo as próprias vidas. Tomando café. Trabalhando. Correndo atrás de dinheiro. Tentando sobreviver. E, de alguma forma, todos esperavam que alguém tivesse as respostas. O problema era que eu nunca tive. Só aprendi a parecer que tinha. Atrás de mim, Coruja voltou a organizar os papéis. Silencioso. Discreto. Como sempre. A manhã continuou. Problemas chegaram. Problemas foram embora. Decisões foram tomadas. Conversas aconteceram. Mas uma coisa permaneceu igual o tempo inteiro. O clima. A tensão. A sensação constante de que bastava uma escolha errada para tudo sair do controle. E era exatamente por isso que ninguém esquecia quem eu era. Não porque eu falava alto. Não porque fazia ameaças. Mas porque todo mundo naquela sala sabia uma verdade simples: Enquanto os outros podiam errar… Eu não tinha esse luxo. Porque a Morte podia carregar muitas coisas. Fraqueza não era uma delas.
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