Encaro meu reflexo no espelho do banheiro masculino, um leve sangramento no nariz agora faz parte da minha aparência.
Como uma garota tão calada, tão tímida pode ser tão... Tão marrenta?
Ela me deu um soco, e mandou eu me f***r. A observando na sala de aula aparenta ser uma garota tímida que aceita qualquer coisa calada e de cabeça baixa, que sente vergonha ou medo de falar coisas de baixo calão.
Engano meu.
Mas não está certo, há algo de errado. Ela não é uma exceção de garota tímida, deve ter algo.
Termino de limpar o nariz ensanguentado e caminho de volta até a sala, a quadra esportiva fica no caminho. Estão arrumando as cadeiras, deve estar perto de terminar essa palestra ou já acabou.
Viro a esquerda caminhando pelo último corredor até a sala de aula, vejo Ruby alí sentada em alguma cadeira que pegou e a posicionou ao lado de fora da porta.
Ela me fuzila com o olhar mas depois ergue o queixo olhando para outro lado.
Seu pescoço ainda está vermelho, e então sinto meu corpo inteiro tremer em repulsa de mim mesmo.
"Desculpa" é só uma palavra, Dean. Diga, vá até lá.
Entrei dentro da sala em um movimento rápido, parecendo até que estava com medo dela.
Pego minha camisa de mangas gola alta na mochila e caminho até ela. Ruby está olhando para o outro lado ignorando minha existência ainda.
— Veste, não deixe ninguém ver. — Imponho tentando não demonstrar nenhuma preocupação na voz, somente ordem. Apesar de que eu sentia um pouco de culpa, e a sensação de que exagerei me preencheu.
Ruby olha para mim e em seguida para a camisa, e então para mim novamente.
— Por que eu faria isso? Por mim ou por você? — Questionou indignada. — Vá à merda, seu babaca covarde.
E então a culpa some, e a raiva me consome novamente. Bufo alto jogando a camisa no colo dela e voltando para dentro da sala. É melhor me afastar para não me irritar com ela, outra vez.
Aos poucos todos voltam para a sala, sinalizando que a droga da palestra acabou.
— Eu procurei você pelo colégio inteiro, e você estava aqui!? — Killer comenta balançando a cabeça indignado.
— Hum?... Ah, é. Estava com sono, devo ter dormido e não saí da sala. — Encaro a porta vendo Ruby entrar vestida com minha camisa.
Killer olha para ela também e em seguida para mim, seu gesto me intimidou por medo dele sequer pensar na possibilidade de que eu estivesse me esfregando nessa garota i****a.
— Emprestou sua camisa para a Ruby? — Killer ergueu uma sobrancelha enquanto sentava na sua cadeira ao meu lado.
— O que!? — Pensei em negar mas desisti. — Sim, ela pediu. Esse ar-condicionado daqui falta nos congelar, ela estava tremendo e fiquei com pena.
— Hum... — Killer resmungou pensando em algo, mas seja lá o que for ele não falava do que se tratava.
— No que está pensando?
— Nada, é só que você não é muito empático... E a pouco tempo estava falando m*l dela, só achei meio repentino você gostar del...
— Eu não gosto dela! — Acho que falei um pouco alto demais, já que todos viraram para mim e ficaram me encarando.
Como Killer teve a capacidade de cogitar essa idéia estúpida de que eu gosto dessa insuportável. Simplesmente, não!
— O que foi que houve ali atrás, os garotos gritando do nada. — Uma das meninas mencionam o ocorrido com humor no tom de voz.
— Seu nariz está sangrando, Dean. Aconteceu alguma coisa? — Raul, professor de não sei qual matéria questiona.
— Mas que p***a… — Killer murmura.
— Merda! — Resmungo tocando meu nariz pela milésima vez e encarando meus dedos sujos de sangue.
— Quer sair rapidinho para se limpar? — Raul sugere.
— Sim. — Levanto da carteira caminhando rápido até à porta.
Saio correndo pelos corredores até chegar ao banheiro. O sangue pingando incontrolávelmente, não era uma grande quantidade mas incomodava para um c*****o. Fora que estava sujando o chão.
Corro para dentro do banheiro me inclinando na pia para alcançar a torneira, lavei o nariz.
Me encaro no espelho vendo minha boca levemente cortada e o nariz ensanguentado, pingando sem parar.
Jogo a cabeça para trás enquanto me mantenho escorado na pia de olhos fechados, esperando que a merda desse sangramento pare.
— Não pode jogar a cabeça para trás, seu i****a. — Ouço uma voz feminina ecoar pelo banheiro masculino. Me assusto e procuro a garota vendo Ruby alí, rapidamente reviro os olhos bufando de raiva.
— O que está fazendo no banheiro masculino, furacão? Volte para a sala, vá estudar sobre genética e se encha de conhecimento para as provas.
Ruby se aproxima de mim me fazendo recuar um pouco mais para trás, mas é impossível atravessar a pia.
— Na verdade era aula de filosofia, ética e razão. — Ruby para em minha frente e segura meu rosto com as duas mãos com cuidado como se fosse quebrar, meu corpo dá um espasmo em repulsa mas ela me olha como se me repreendesse. — Me deixe ver. — Pediu com a voz suave me desarmando.
Ela analisou meu rosto, olhou minha boca cortada por alguns segundos e me soltou.
— Não vai ficar com hematoma, acho que só dolorido por uns dias.
Observo seus movimentos, ela se inclina um pouco para o lado puxando um papel toalha e o dobrando cuidadosamente.
— Toma, estanca o sangue com a cabeça abaixada. — Ordena.
— Por que eu faria o que você está mandando?
— Porque se você tombar a cabeça para trás corre o risco de o sangue ir para a sua garganta, desagradável, não é? Então abaixa a cabeça, seu i*****l.
Faço o que ela pediu deixando a cabeça baixa, agora sendo obrigado a ficar com o rosto na direção do dela. Alguns centímetros mais baixa que eu, apesar de que ela é bem alta.
— O que diabos você veio fazer no banheiro masculino?
— Ainda está doendo? — Ela questionou.
— Você me deu um soco, o que acha?
— Você me estrangulou.
— Eu nem coloquei tanta força assim, só segurei seu pescoço praticamente. — Franzi o cenho irritado.
Ruby abaixou um pouco a gola da camisa e encarei seu pescoço claro com marcas quase imperceptíveis dos meus dedos.
— É, tem razão. Mas fiquei sem ar.
— Nem notei. — Ironizo.
— i****a.
Encaro seu rosto, notando seus longos cílios arqueados, as sobrancelhas bem alinhadas, algumas mechas de cabelo escuros caídos sobre o rosto, seu delineado preto bem marcado, lábios rosados...
— O que foi? — Ela questionou erguendo uma sobrancelha me tirando da minha análise.
— Nada. — Dei de ombros desviando o olhar para outra direção.
Ruby interage somente com as amigas, m*l fala com as outras pessoas ou professores, ela é um tipo de menina tímida que tem vergonha de fazer coisas simples. Não consigo entender, ela pediu ao professor em voz alta para vim até o banheiro? Mas não foi ao banheiro, ela veio até mim.
— Veio até aqui me ajudar? — Questionei franzindo as sobrancelhas confuso.
— Você me emprestou a camisa, achei que tivéssemos dado uma trégua. Já que você se redimiu por algo que você mesmo causou, vim aqui matar aula e pelo menos tentar ajudar, retribuir do mesmo jeito que você. — Ela diz enquanto mexe no colar delicado pendurado no pescoço, um rubi.
— Hum. — Tentei fechar minhas expressões tentando não deixar nenhuma simpatia amostra. — Trégua de quê exatamente?
— Podemos tentar ser amigos, se você não induzir meu amigo para coisas erradas, é claro. — Deu de ombros. — Não quero ter intrigas com ninguém, gosto muito da minha turma e me dou bem com todos.
— Não quero ser seu amigo. — Brinquei a provocando.
— Então vá se f***r.
Eu quis rir com a sua mudança de humor, mas me segurei.
Ela é interessante, consegue me surpreender às vezes. Não sei se a idealizei e acreditei que ela fosse uma garota fechada e tímida, que tinha medo de falar palavrões, que fosse ingênua. Mas o jeito como ela age não parece... Ou talvez seja, e eu que tenho mania de acreditar que por ela falar palavrão é uma garota festeira.
— Você não chega mais perto de mim. — Ordenei divertido, mas sem demonstrar.
— E nem você de mim. — Ela esbravejou perdendo paciência de uma hora para outra porque recusei seu pedido de amizade.
Encarei suas costas enquanto ela se distanciava, não consegui evitar o riso frouxo que saiu sem querer.
Afastei o papel toalha do nariz e suspirei aliviado por o sangramento ter parado.
— Ei! — Gritei por ela, Ruby virou para me olhar. — Desculpa por…
— Vá se f***r. — Gritou me interrompendo me fazendo rir pelo nariz. Acho que somos amigos agora, sim.