Giulia
Chego em casa com o coração na boca.
Todo o caminho até aqui fiquei revivendo a visita dele no estúdio de dança e me convencendo que vou manter distância dele. Reforçando mentalmente a minha promessa de usar a minha liberdade para rumar a minha vida para outro destino.
Muito longe das pessoas mais podres dessa sociedade.
Ainda estou um pouco trêmula quando paro o carro na vaga de sempre da garagem e saio para o ar frio. Me arrependo na mesma hora de não ter me trocado devidamente antes de sair, mas a urgência de achar os documentos foi maior.
Preciso aproveitar a ausência do meu pai e qualquer compromisso que a minha mãe tenha, evitando assim, ser pega mexendo no que eu não devo.
Abro a porta em silêncio e encaro a escadaria diante de mim. Tudo parece vazio e eu respiro aliviada ao fechar a porta atrás de mim.
- Cheguei. - Aviso e por sorte nenhuma resposta ecoa pelas paredes. Abro um sorriso.
O silêncio da mansão Mantovani nunca me pareceu tão pesado quanto hoje. Parece que as paredes estão me vigiando, conforme me movo, prontas para contar ao meu pai que eu estou prestes a iniciar um plano que vai mudar os negócios dele para sempre.
Subo as escadas devagar, tentando não fazer barulho. Passo pelo quarto da minha mãe e ouço o som baixo da televisão. O cheiro de vinho flutua pelo corredor. Ela já deve estar no terceiro ou quarto copo, afogada na própria amargura.
Ela está em casa, mas a essa hora, deve estar completamente bêbada.
Ótimo. Menos um problema.
Vou até o final do corredor, onde fica o escritório do meu pai. É um lugar que eu sempre evitei. Aquele cômodo cheira a charuto, contas não pagas e mentiras.
Giro a maçaneta com cuidado. Está trancada.
- Droga! - Sussurro, sentindo o suor frio escorrer pelas minhas costas.
O meu pai é metódico. Ele sempre guarda a chave reserva em um vaso chinês no corredor, um hábito antigo que ele acha que ninguém notou.
Enfio os dedos na porcelana fria e sorrio quando sinto o metal.
Entro no escritório e fecho a porta atrás de mim. Está escuro, apenas a luz da lua entra pela janela. Não ouso acender a luz. Uso a lanterna do celular, com o brilho no mínimo.
Minhas mãos tremem enquanto começo a mexer nas gavetas da mesa de carvalho.
Papéis de impostos, cobranças de bancos, registros de exportação... tudo parece uma bagunça completa. A empresa realmente parece estar no limite. Sinto uma mistura de pena e raiva.
Como ele pôde ser tão irresponsável?
Depois de dez minutos de busca desesperada, palpitação e suando frio, encontro uma pasta preta, escondida no fundo da última gaveta.
"Acordo de Fusão e Aliança Matrimonial: Galvão & Mantovani"
O título queima os meus olhos. É isso.
Abro a pasta e começo a folhear as páginas. Os meus olhos correm pelas cláusulas, buscando os termos que o Pedro me pediu. Vejo os valores, as datas e, então, chego na parte que faz o meu sangue gelar.
Cláusula 12.4: Da Garantia de Sucessão.
Leio uma, duas, três vezes. O ar falta nos meus pulmões. O acordo não é apenas sobre o meu casamento com o Fábio. Diz claramente que, após o nascimento do primeiro herdeiro, o Fábio passa a ter controle total sobre as minhas ações da empresa.
Eles não querem apenas me casar. Eles querem me anular. Eles querem me transformar em uma fábrica de herdeiros para que o Fábio possa ser o dono de tudo de forma legal.
É pior do que eu imaginava.
- Você está realmente me vendendo, pai? - Pergunto para o vazio, sentindo as lágrimas de ódio picarem meus olhos. Tiro fotos de cada página com o celular, com as mãos ainda trêmulas.
Encaro a impressora e cogito tirar cópias, mas o som de um carro chegando na garagem me faz pular.
É o meu pai.
Guardo a pasta no lugar exatamente como estava, tranco a porta e coloco a chave de volta no vaso. Corro para o meu quarto e me jogo na cama, cobrindo o corpo com o edredom.
Segundos depois, ouço os passos pesados dele no corredor.
Enfio a mão no bolso do casaco e tiro o cartão preto e dourado, que representa nesse momento a porta da minha liberdade. Pego o celular e digito o contato do Pedro com as mãos ainda tremendo. A minha respiração ainda está curta, o cheiro de "perigo, raiva e medo" parece impregnado na minha pele.
Giulia: "Eu consegui. É pior do que a gente imaginava."
Envio a mensagem e espero. Um minuto depois, o celular vibra.
Pedro: "Nos vemos em uma hora, nesse endereço.”
Pisco os olhos, esperando qualquer sinal de arrependimento enquanto encaro a mensagem. Respondo com um ok e salto da cama, quase correndo, para tomar um banho.