Capítulo 7

1350 Words
Rhae O carro ronronava pela estrada, o sol do meio-dia batendo no para-brisa e iluminando o interior com um brilho quente e vivo. Eu me sentia elétrica, o coração pulsando com uma mistura de empolgação e nervosismo que eu não experimentava há anos. Ali, ao lado de Dante, o mundo lá fora parecia cheio de possibilidades: prédios altos se erguendo como sentinelas, pessoas correndo pelas calçadas, a vida humana pulsando em contraste com o silêncio noturno da mansão. Ele dirigia com uma confiança casual, uma mão no volante, a outra tamborilando no câmbio, e eu não conseguia parar de olhar para ele de relance. Aquela camisa preta aberta no colarinho revelava um vislumbre de pele, e o perfume amadeirado dele preenchia o ar, me deixando um pouco tonta. Por que ele me afetava assim? Era irritante e emocionante ao mesmo tempo. — Então, Rhae — disse Dante, quebrando o silêncio com aquela voz rouca e divertida que sempre parecia carregar um segredo. — Já que você vai fazer parte da família, acho justo te contar como as coisas rolam no nosso "império". Eu sou contador e advogado de formação, mas no dia a dia, cuido das finanças da empresa. Manipulo números como se fossem brinquedos, evito impostos de forma criativa... você sabe, o de sempre. Ele riu, um som baixo e genuíno que me fez sorrir apesar de mim mesma. Meu peito se aqueceu com a leveza dele; era como se ele estivesse me convidando para um mundo onde tudo era possível, sem as sombras da mansão pairando sobre nós. — Lucien é o advogado chefe — continuou ele, os olhos fixos na estrada, mas com um tom de respeito misturado a algo mais afiado. — Ele lida com os contratos, as disputas legais... é o cérebro por trás de tudo que precisa de frieza e precisão. Drago é o engenheiro chefe, gerencia as construções e os projetos de infraestrutura que nos mantêm no topo. E Sebastian... ah, o caçula é o médico chefe do nosso hospital particular. Ele cuida da saúde do clã e de quem mais precisar, com aquele ar possessivo dele. Cada um de nós tem seu ramo, sua fatia do bolo. Mantém as coisas equilibradas. Senti uma onda de admiração me invadir, misturada a uma pontada de inveja. Eles tinham propósitos, papéis definidos em um mundo que eu m*l começava a entender. Meu coração acelerou com a ideia de que eu poderia me encaixar nisso tudo. "Parte da família", ele disse. As palavras ecoavam na minha mente, aquecendo algo que eu achava que tinha perdido para sempre. — E você, Rhae — acrescentou ele, virando o rosto para mim por um segundo, os olhos escuros brilhando com curiosidade. — Pode escolher qualquer faculdade que quiser. Medicina, direito, engenharia... o céu é o limite. Nós pagamos tudo, e você se torna o que sonhar. Parei de respirar por um instante. Meu estômago deu um salto, uma mistura de descrença e empolgação que me deixou zonza. Eu, uma órfã da instituição, escolhendo uma faculdade? Qualquer uma? As lágrimas pinicaram meus olhos, mas eu as segurei, o peito inflando com uma esperança que eu não sentia desde criança. — Sério? — perguntei, a voz saindo incrédula, quase um sussurro. — Qualquer uma mesmo? Dante sorriu, aquele sorriso lento e charmoso que fazia meu pulso disparar. Ele diminuiu a velocidade do carro ao se aproximar de um semáforo, e seu olhar se fixou no meu, intenso e encorajador. — Sim, Rhae. Qualquer uma. Você é uma Vespermont agora. Isso vem com privilégios. Meu coração batia forte, uma batucada animada que ecoava nos meus ouvidos. Eu me sentia viva, como se portas que eu nem sabia que existiam estivessem se abrindo. Mas havia uma vulnerabilidade ali também: medo de que fosse bom demais para ser verdade, de que eu não merecesse isso. — Me conta — disse ele, curioso, inclinando-se um pouco mais perto enquanto o carro parava. — O que você sempre sonhou em fazer? Não me diga que é algo chato como contabilidade. Ri, uma risada genuína que veio do fundo do peito, aliviando a tensão. Senti um calor subir pelo meu rosto, mas era bom: empolgante, como compartilhar um segredo há muito guardado. — Sempre sonhei em cuidar de animais ou pessoas — confessei, as palavras saindo com uma paixão que eu não conseguia conter. — Tipo, médica ou veterinária. Ver alguém se curar, ajudar a aliviar a dor... isso me faz sentir útil, sabe? Como se eu pudesse consertar um pedacinho do mundo. Dante me encarou, os olhos escuros se estreitando levemente, como se estivesse me vendo pela primeira vez. Havia algo profundo ali, uma intensidade que me fez prender a respiração. Meu coração disparou novamente, não de medo, mas de uma conexão elétrica que eu não esperava. — Você gosta de animais? — perguntou ele, a voz baixa e curiosa, como se a resposta importasse mais do que ele deixava transparecer. Assenti, sentindo uma onda de nostalgia me invadir, misturada a uma saudade doce e dolorida. Meus olhos se umedeceram, mas eu sorri através dela. — Sim, muito. Sempre quis ter uma gata igual à que eu tinha quando criança. Uma siamesa de olhos azuis e pelo longo. Ela era minha melhor amiga... até tudo mudar. As memórias vieram como um flash: o ronronar suave, o pelo macio contra minha pele, o conforto em um mundo que desmoronava. Meu peito apertou, mas era um aperto bom, cheio de anseio por algo simples e puro. Dante ficou em silêncio por um momento, o carro agora seguindo por uma avenida movimentada. Então, ele suspirou, um som pensativo que carregava um toque de arrependimento. — Se pudesse, eu te daria um animal agora mesmo — disse ele, com um sorriso brincalhão, mas os olhos sérios. — Mas aquela mansão é complicada. A maioria não gosta de animais, ainda mais da parte da Valéria. O Lucien é igual à mãe, frio e sem coração. Ele riu, como se fosse uma piada interna, mas algo no tom dele me fez pausar. Meu estômago se contraiu levemente: era brincadeira, mas e se tivesse um fundo de verdade? Lucien sempre me parecera distante, calculista, como se emoções fossem fraquezas. E Valéria... ela era maternal comigo, mas eu sentia camadas por baixo daquela suavidade. — Você não gosta da sua madrasta? — perguntei, o coração batendo com uma curiosidade ousada. — E do Lucien? Dante ficou pensativo, os dedos apertando o volante por um segundo. O ar no carro pareceu mais pesado, carregado de história não contada. Senti uma pontada de empatia: ele não era só o provocador charmoso; havia dor ali, escondida. — Gostar é uma palavra forte — respondeu ele finalmente, a voz baixa e reflexiva. — Mas eu a respeito muito. Ela tirou meu pai da depressão quando minha mãe morreu. Ele não conseguia superar a perda... ficou destruído por anos. Valéria trouxe vida de volta para ele. E depois que casaram, tiveram filhos: Drago e Sebastian. Querendo ou não, isso nos uniu. Somos uma família agora, com todas as complicações que vêm junto. Suas palavras me atingiram como uma onda, despertando uma empatia profunda no meu peito. Eu conhecia a dor da perda, o vazio que ela deixava. Meu coração doeu por ele, por Cassius, por todos eles. Mas também se encheu de gratidão: por estar ali, ouvindo isso, me sentindo parte de algo maior. Dante não era só brincalhão; ele era leal, mesmo nas sombras. — Entendo — murmurei, tocando levemente o braço dele sem pensar. — Família é complicada, mas é o que nos mantém inteiros. Ele olhou para mim, surpreso, e então sorriu: um sorriso verdadeiro, sem ironia. O carro parou em frente a um prédio moderno e imponente, a sede da Vespermont Investments. Meu pulso acelerou com a empolgação do que viria a seguir. Saímos, e enquanto caminhávamos para a entrada, eu me sentia mais viva do que nunca, pronta para mergulhar nesse novo capítulo. Mas no fundo, as palavras dele ecoavam: família, com todas as complicações. E eu estava ansiosa para desvendar cada uma delas.
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