Rhae
Acordei com a luz do sol filtrando pelas cortinas pesadas do meu quarto, um brilho suave que pintava as paredes de um dourado pálido. Meu corpo ainda estava ajustado ao ritmo diurno, então o despertar veio cedo, por volta das oito da manhã, eu acho. Pisquei algumas vezes, tentando me orientar. A mansão Vespermont era um mundo à parte, e cada detalhe me lembrava disso: a cama enorme, com lençóis de seda que pareciam abraçar minha pele, o armário cheio de roupas que eu ainda não tinha coragem de usar, e o silêncio. Ah, o silêncio.
Era absoluto, como se a casa inteira estivesse prendendo a respiração. Nenhum som de passos no corredor, nenhuma voz ecoando das salas abaixo, nem mesmo o vento batendo nas janelas antigas. Por um instante, senti um arrepio subir pela espinha, como se estivesse sozinha em um castelo abandonado. Mas então me lembrei: eles eram vampiros. Valéria, Cassius e os quatro irmãos passavam o dia descansando, protegidos da luz que os incomodava, mesmo que não os matasse. Era o horário deles para o "sono", ou o que quer que chamassem aquilo. Eu era a única humana ali, acordada e viva no sentido mais literal. Ignorei o desconforto, me espreguicei e me levantei. Não valia a pena ficar pensando nisso; eu tinha escolhido esse caminho, e agora precisava me adaptar.
Desci as escadas com cuidado, meus pés descalços tocando o chão frio de mármore. A mansão parecia ainda maior durante o dia, com os lustres refletindo a luz natural e as sombras se estendendo pelos cantos. Cheguei à cozinha – ou melhor, à sala de refeições adjacente, onde as empregadas já haviam preparado tudo. Elas eram como fantasmas educados: surgiam do nada, faziam seu trabalho e desapareciam. Duas delas estavam ali, arrumando a mesa com pratos fumegantes. Uma mulher de meia-idade, com cabelos presos em um coque apertado, sorriu para mim de forma profissional.
— Bom dia, senhorita Rhae — disse ela, com uma voz suave e neutra. — Seu café da manhã está pronto. Ovos mexidos, torradas, frutas frescas e suco de laranja. Se precisar de algo mais, é só chamar.
— Obrigada — respondi, sentando-me à mesa. O cheiro era delicioso, e meu estômago roncou em aprovação. Eu não estava acostumada a refeições assim na instituição; lá, era tudo simples e funcional. Aqui, até o suco parecia recém-espremido de laranjas colhidas no jardim.
Enquanto comia, observei as empregadas se movimentarem. Elas não falavam muito, mas eu percebia que eram humanas, como eu. Provavelmente contratadas para lidar com as tarefas diurnas, enquanto a família descansava. Perguntei-me se elas sabiam a verdade sobre os Vespermont. Deviam saber; era impossível trabalhar ali sem notar as peculiaridades. Mas elas pareciam confortáveis, eficientes. Terminei o café devagar, saboreando cada mordida, e me perguntei o que fazer com o resto do dia. Explorar a mansão? Ler algum livro da biblioteca imensa que eu tinha visto no dia anterior? Ou simplesmente esperar a noite cair, quando a casa ganharia vida novamente?
Estava limpando a boca com o guardanapo quando ouvi passos. Leves, mas decididos, vindos do corredor adjacente. Meu coração deu um pequeno salto – quem estaria acordado a essa hora? Levantei o olhar e lá estava ele: Dante.
Ele entrou na sala como se fosse o dono do lugar – o que, tecnicamente, ele era. Mas o que me pegou de surpresa foi sua aparência: sem camisa, vestindo apenas uma calça jeans baixa na cintura, os músculos definidos do peito e dos braços expostos casualmente. Seus cabelos castanhos estavam bagunçados, como se ele tivesse acabado de acordar, e seus olhos escuros brilhavam com aquela mistura de diversão e perigo que eu já conhecia. Ele parecia completamente confortável em sua própria casa, como se andar assim fosse a coisa mais natural do mundo. E talvez fosse, para ele.
Meu coração acelerou imediatamente. Não consegui evitar; era uma reação instintiva ao vê-lo assim, tão... exposto. Senti o calor subir para o meu rosto, e tentei desviar o olhar para o prato vazio. Mas era tarde demais. Dante parou no meio da sala, inclinando a cabeça levemente, como se estivesse escutando algo. As batidas do meu coração. Claro. Vampiros podiam ouvir isso, não podiam? Ele me encarou diretamente, e um sorriso lento se espalhou por seus lábios – um sorriso que era ao mesmo tempo charmoso e predatório.
— Bom dia, Rhae — disse ele, a voz rouca de quem acabou de acordar, mas ainda carregada de ironia. — Teve uma boa noite?
Engoli em seco, forçando um sorriso educado. Meu coração ainda batia forte, mas tentei soar normal.
— Sim, obrigada. Dormi bem.
Ele assentiu, ainda sorrindo, e se aproximou da mesa, pegando uma maçã do cesto de frutas como se fosse dele. Mordeu devagar, os olhos fixos em mim o tempo todo. Havia algo na forma como ele me olhava que me deixava inquieta – não exatamente ameaçador, mas intenso. Como se ele estivesse avaliando cada detalhe meu.
— Que bom — respondeu, depois de engolir. — Eu também. Mais ou menos. Sonhos agitados, sabe como é.
Ele deu de ombros, o movimento destacando os músculos do seu peito. Tentei não notar, mas era impossível. Dante parecia se divertir com minha reação, como sempre. Ele se encostou na mesa, bem perto de mim, e continuou:
— Ei, que tal vir comigo para a empresa hoje? Posso te mostrar como as coisas funcionam por lá. Seria bom você conhecer o império da família, né? Afinal, agora você faz parte disso tudo... irmãzinha.
A forma como ele disse "irmãzinha" foi provocativa, com um tom baixo e arrastado que enviou um arrepio pela minha espinha. E enquanto falava, seus olhos desceram devagar para o meu pescoço, demorando-se ali por um segundo a mais do que o necessário. Senti um calafrio – era como se ele estivesse vendo algo além da pele, talvez as veias pulsando, ou apenas me provocando de propósito. Meu coração acelerou ainda mais, e eu me mexi na cadeira, desconfortável.
— Seu olhar está me deixando desconfortável — disse eu, finalmente, olhando diretamente para ele. Não queria soar fraca, mas também não ia fingir que não notava.
Dante piscou, como se saísse de um transe, e ergueu as sobrancelhas em surpresa fingida. Então, riu baixo, um som genuíno e divertido que ecoou pela sala vazia.
— Ah, é? Desculpa, Rhae. Não era a intenção. — Ele se endireitou, ainda sorrindo. — Vou tentar evitar olhar para você, então. Pelo menos enquanto você estiver comendo.
Ele piscou para mim, claramente não levando a sério, mas deu um passo para trás, dando-me espaço. Pegou outra maçã e a jogou no ar, pegando-a com facilidade. Senti um misto de alívio e irritação – Dante era assim, sempre testando limites, sempre com aquela aura de quem sabe exatamente o efeito que causa.
— Sério, vem comigo — insistiu ele, agora com um tom mais casual. — A empresa é no centro da cidade. Gerenciamos investimentos, imóveis, um monte de coisas chatas que nos mantêm ricos há séculos. Posso te explicar tudo no caminho. Além disso, seria bom você sair um pouco dessa mansão. Não quero que vire uma eremita diurna.
Pensei por um momento. Parte de mim queria ficar ali, segura no silêncio, processando tudo o que tinha acontecido na noite anterior. A conversa no jantar, as perguntas invasivas, minha decisão impulsiva de ser "irmã" em vez de esposa. Mas outra parte – a parte curiosa, a que queria entender esse novo mundo – achava a ideia tentadora. Dante era o único que saía durante o dia, como ele mesmo tinha dito. E, apesar da provocação, ele tinha sido... acolhedor, de certa forma. Pelo menos mais do que Sebastian ou Lucien.
— Tudo bem — respondi, finalmente. — Vou me arrumar.
Seu sorriso se alargou, vitorioso.
— Ótimo. Te espero na garagem em meia hora. Vista algo confortável – o dia vai ser longo.
Ele saiu da sala com a mesma desenvoltura, mordendo a maçã e desaparecendo pelo corredor. Fiquei ali por um segundo, tentando acalmar o coração. Por que ele me afetava tanto? Era o charme dele, ou apenas o fato de que eu nunca tinha lidado com alguém assim? Balancei a cabeça e subi para o quarto.
Me arrumei rápido: uma blusa simples, jeans e tênis. Nada chamativo, mas prático. Quando desci para a garagem, Dante já estava lá, agora vestido com uma camisa preta aberta no colarinho e calças sociais. Ele dirigia um carro esportivo preto, reluzente sob as luzes artificiais.
— Pronta, irmãzinha? — perguntou, abrindo a porta do passageiro para mim.
Revirei os olhos, mas entrei. O carro cheirava a couro novo e ao perfume dele – algo amadeirado e sutil. Enquanto saíamos pelos portões da mansão, ele começou a falar sobre a empresa: Vespermont Investments, uma fachada para gerenciar fortunas acumuladas ao longo dos séculos. Eles investiam em tecnologia, imóveis globais, até arte antiga.
— É como um jogo — explicou ele, dirigindo com uma mão no volante. — Mantemos o dinheiro circulando, mas sem chamar atenção. Vampiros não podem ser pegos pela Receita Federal, né?
Ri apesar de mim mesma. A cidade passava pela janela, prédios altos e pessoas comuns vivendo suas vidas diurnas. Era estranho estar ali, com ele, como se fôssemos normais.
Mas não éramos. E quando ele olhou para mim de relance, vi aquele brilho nos olhos novamente. Tentei ignorar, focando na estrada. O dia prometia ser interessante, mas eu sabia que com Dante, nada era simples.